Eletricidade na pele

Vamos reconhecer, René Ariel Dotti é o grande intelectual do Paraná. Ao lado do professor e crítico literário Wilson Martins. Poucos sabem, o brilhante jurista foi um reconhecido ator. Com sua paixão pela dramaturgia, construiu no centro de sua própria casa um pequeno palco italiano; lá recebe poucos e bons amigos em troca de um abraço.

A carreira teatral do jovem René Dotti não foi longa. Foi suficiente para se inscrever na história do teatro paranaense, ao lado de outros importantes nomes: Ary Fontoura, Odelair Rodrigues, Lala Schneider, Maurício Távora, José Maria Santos, Oraci Gemba, Yara Sarmento, para citar os de recente memória.

O grande orador que conhecemos aprendeu as técnicas de respiração e impostação de voz no proscênio do falecido Teatro de Bolso, na Praça Rui Barbosa. Quando estreou nos tribunais, o talento do intérprete fez dos presentes coadjuvantes. Uma voz que se elevou especialmente na defesa dos perseguidos nos anos de silêncio do governo militar. Não há como esquecer daquele timbre.

A lembrança do advogado que construiu o seu próprio palco veio a propósito do Festival de Teatro que acontece em Curitiba, na eletricidade destas seguidas noites de tantas estréias. A eletricidade que move um ator em sua estréia, René Ariel Dotti conhece na pele.

Aqui, duas cenas de lágrimas, risos e ranger de dentes.

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CENA UM

Teatro de Bolso, década de setenta. Estréia da peça Bolas de papel, de Manoel Carlos Karam, e o primeiro papel de uma jovem atriz. O pequeno palco do Teatro de Bolso chegava quase junto à primeira fila de poltronas, cara a cara com o público.

A luzes se apagam, a jovem atriz entra em cena no breu. Ela se agacha na boca do palco, acende um cigarro e, quando o spot-light ilumina -lhe os olhos azuis, a menina solta uma longa baforada de fumaça, antes de inicar um longo ?bife? sobre Carmem Miranda: ?Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em Marco de Canavezes…?.

Parou em Marco de Canavezes, interior de Portugal. A jovem atriz tem um ?branco? de segundos, seguido de uma profunda exclamação: ?Maamãããe!!!?.

Em se tratando de teatro contemporâneo, a cena de espanto seria perfeitamente compreendida. Não fosse a casualidade da mãe da iniciante atriz estar sentada na primeira fila – cara a cara, olho no olho -, e a pobre menina nunca havia sido vista fumando perante a família. Foi sua estréia.

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CENA DOIS

Rio de Janeiro, não importa a data. Teria sido no Teatro dos Sete, formado por Sérgio Brito, Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Ítalo Rossi, Giani Ratto, Luciana Petrucelli e Alfredo Souto de Almeida?

Importa é que os atores da estréia eram Fernanda Montenegro e Sérgio Brito.

Agostinho era um ajudante que fazia de-quase-tudo-um-pouco no estúdio do cartunista Ziraldo. Entregava charges no Jornal do Brasil, corria ao banco, levava as crianças à escola, e guardava um segredo só muito tempo depois revelado: tinha quase sido ator de teatro, não fosse sua estréia com Fernanda Montenegro e Sérgio Brito.

Agostinho entrava em cena no final do primeiro ato, dizia duas frases e fechavam-se as cortinas. Na cena principal do drama, Sérgio Brito restava adoentado no leito, Fernanda Montenegro aflita, o médico batia à porta: o doutor era Agostinho.

– Doutor, que bom que o senhor veio!

– Boa noite, senhora! – responde Agostinho, dirigindo-se ao adoentado.

Agostinho se posta junto ao leito, e pergunta:

– Este é o doente?

Assim era o papel do estreante Agostinho: o doutor batia à porta, dava boa-noite e perguntava se aquele era o doente. Simples, mas foram dias e dias de exaustivos ensaios, sob a direção de Giani Ratto, provavelmente.

Dia de estréia, eletricidade na pele.

Final do segundo ato. O doente no leito, a senhora aflita, o médico bate à porta:

 Doutor, que bom que o senhor veio!

 Boa noite, senhora!

O médico se posta junto ao leito, e pergunta:

– Este é o Sérgio Brito?


"Bolas de papel", de Manoel Carlos Karam, no Teatro de Bolso:
Dante Mendonça (primeiro à esquerda), também autor da cenografia
e Beto Guiz (primeiro à direita). O cartunista Solda estava escondido
entre as caixas de papelão que formavam o cenário. A iluminação era de Beto Bruel.

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