Ai se não fosse o calendário de efemérides. Seríamos um povo desmemoriado, desprovido de gentilezas, uns bárbaros. Mas, não. Graças ao calendário, aos pauteiros da imprensa e às agências de publicidade, todo dia é dia de lembrar de alguém. Hoje, por exemplo, é dia do sogro e do telefone; dos santos Domingos Sávio, Himelino e Caio; e segunda-feira passada foi o Dia Internacional da Mulher.
Ai se não fosse o calendário de efemérides. Sem ele, neste 8 de março a mulher não seria reverenciada, não teríamos reconhecido o seu valor e a sua dor. Mulher apanha. Mas parece que naquele dia apanha muito mais, segundo estatísticas publicadas em sua homenagem. Tem mulher que trabalha e mulher que não trabalha. Mas naquele dia nos damos conta que são doutoras, executivas, deputadas, senadoras. Outras desafortunadas, zero à esquerda.
Ai se não fosse o calendário de efemérides. Não teríamos lido um inédito texto de Rubem Fonseca defendendo a mulher Luma de Oliveira. Diz o escritor no Portal Literal (www.literal.com.br ):
“Você falou falsa? Ela por acaso é presidente da Liga da Decência e estava enganando meio-mundo? Porra, ela tirava foto pelada, desfilava pelada, não é nenhuma hipócrita, não comete qualquer impostura e falsidade, nós sabemos quem ela é, ela nunca escondeu nada de nós – corpo e alma. Essa moça não faz mal a ninguém, e se alguém pode se sentir ofendido pelo episódio é apenas o marido.” (…) “Os bandidos são, pela ordem: a imprensa, o bombeiro e nós. A imprensa, que não se envergonha de ter um comportamento desses apenas por mercantilismo, para vender mais anúncio de cerveja; o bombeiro, que por vaidade não hesita em cometer uma vileza, para andar pelas ruas, ser apontado com admiração pelos circunstantes, que dizem ?lá vai o cara que comeu a Luma de Oliveira? – e quem sabe, ele talvez seja convidado para participar do próximo ?Big Brother?, ou então para ter o seu próprio programa de televisão. E finalmente o vilão final somos nós, todos nós, que gostamos da sensação do schadenfreude, esse invejoso prazer que sentimos ao constatar a desgraça, o opróbrio dos outros.”
Ai se não fosse o calendário de efemérides. Todo dia seria dia de Luma de Oliveira, de Cláudia Abreu, de Gisele Bündchen, demais modelos e atrizes. O Lula não teria recebido companheiras camponesas nem oferecido um café da manhã para 400 funcionárias do Palácio do Planalto e poucos saberiam a história do companheiro presidente:
“Eu sou filho de uma mulher que na primeira tentativa de violência contra ela pelo seu marido, ela simplesmente rompeu com ele e foi viver sozinha com oito filhos e provou que, quando a mulher tem garra, determinação, ela não tem que ficar dependendo de uma pessoa que, às vezes, ao invés de ajudar, atrapalha.”
Ai se não fosse o calendário de efemérides. Eu não poderia fazer uma homenagem tardia, ainda Em Tempo, à jornalista Ruth Bolognese. Menina espoleta, cabelo e cabeça de fogo, é uma chama de mulher que renovou o colunismo da imprensa paranaense. Passando em revista, lugar de mulher nas páginas era na “cozinha” (jargão jornalístico onde ainda atuam grandes mulheres editoras), na reportagem (são tantas e brilhantes) ou então no brilhareco das colunas sociais. Ruth Bolognese cruzou esses percursos. Corajosa e sem maquiagem, no confinamento de uma coluna fadada às frivolidades, ela enveredou por um novo caminho, criou seu próprio rumo e jeito de andar.
Ai, se não fosse a Ruth Bolognese. Hoje a nossa imprensa seria muito previsível, muito chata, sem arestas, sem o charme, o perfume e, principalmente, sem o doce veneno de uma mulher.
Até sexta-feira, caras leitoras.