Sabe aquela leitura de praia, uma esteira, uma toalha, o bronzeador e o guarda-sol? Isso é bom demais. Assim é a biografia de Danuza Leão, um livro bom demais para ler na praia.
Por sugestão de Millôr Fernandes, o título do livro já diz tudo. Em 221 páginas, é Quase tudo. Se Danuza Leão não revela tudo, o resto deixou para um outro livro que já prometeu escrever e, muito justamente, vai se chamar Tudo. Bom demais é possuir amigos como Millôr Fernandes. Muito esperto, o mestre deve ter raciocinado assim:
– Danuza, escreva um livro para as paradas de sucesso, mas guarde memórias para um segundo, até um terceiro. Quase tudo, tudo e mais um pouco.
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Porque a obra de Danuza é um desfile de celebridades, antes uma história também boa demais, acontecida sábado passado, aqui em Curitiba. Que o ator Antônio Fagundes passa alguns dias com a gente, todo mundo sabe. Especialmente quem freqüenta os melhores restaurantes da cidade. Tem passado todos eles em revista, enquanto faz hora para se apresentar no espetáculo de Natal do Palácio Avenida. Numa dessas andanças gastronômicas, o ator foi jantar no Bar dos Passarinhos. Chegou com a namorada, mais a empresária, e se encaminhou à cozinha, para dar um abraço no maître Marcos Dolabela.
No mesmo instante, junto à porta da cozinha, a cozinheira Josi estava telefonando, quando viu o ator se aproximando, se aproximando… cada vez mais pertinho:
– Mãe, sabe quem está aqui? O Antônio Fagundes!
Já ao seu lado, Antônio Fagundes interrompeu o telefonema:
– Por que você está falando no meu nome?
– Estou contando para minha mãe que você está aqui!
– Então deixe eu falar com ela! – replicou o ator, tomando o telefone e entabulando uma simpática conversa com a mãe da atônita cozinheira do Bar dos Passarinhos.
Antônio Fagundes achou a comida boa demais, posou para fotografias e, antes de pagar a conta, fez questão de chamar a cozinheira à mesa, lhe entregar um especial autógrafo à mãe, e assim provar – quem vai acreditar? – que o dono da voz era ele mesmo, o Pedro da Carga Pesada.
Esse Antônio Fagundes é gente boa demais.
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Voltando às memórias de Danuza, ela conta a história de outros dois atores – mas não vamos confundir com Antônio Fagundes, porque uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Abre aspas e o que Danuza escreveu vai com todos os pingos nos is:
"E sucesso fez a manequim Nina Dyer, quando começou a namorar o industrial alemão Heini Tyssen, que além de tudo era barão. Um dia ela entrou no Relais, na hora do almoço, com um filhote de pantera nos braços, usando – a pantera – um colar de pérolas negras, então muito raras. Nina e Heini se casaram, mas a união foi curta, e le tout Paris veio a saber que, logo depois do casamento, ela deu um avião de presente a Christian Marquand, por quem era apaixonada. Marquand foi o galã de Brigitte Bardot em Et Dieu… créa la femme e teve um caso com Marlon Brando, que, apaixonado, botou o nome de Christian em seu primeiro filho. Somente as pessoas do milieu souberam do caso, que não chegou a se tornar público porque ainda não existiam as revistas de fofocas".
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Em meio às tragédias históricas – en passant – e pessoais, Danuza teve uma vida boa demais. Essa gostosa expressão, "bom demais", perpassa a biografia da ex-manequim que foi casada com três grandes jornalistas. Pela ordem, sem alterar o produto, Samuel Wainer, Antônio Maria e Renato Machado. O texto é bom demais, Danuza aprendeu o ofício.
No desfecho de Quase tudo, Danuza confessa seus 72 anos e que ainda está boa demais: foi abordada por um desconhecido nas ruas de Paris, terminando a narrativa entre os lençóis daquele que nem mesmo sabe o nome.
Esse final foi bom demais.