Uma conversa cordial, franca e também tensa. Assim foi a reunião entre o vice José Alencar e o presidente Lula, agendada para acabar com a desconfortável polêmica sobre a política de juros. Conversaram por 40 minutos na Base Aérea de Brasília, com Alencar degustando bolinhos de queijo e Lula dividindo um chimarrão com o ex-governador gaúcho Olívio Dutra. Os diálogos, gravados pelo senador Antônio Carlos Magalhães, publicamos abaixo com absoluta exclusividade:

Alencar – 20 ver, 100 querer!

Lula – Alencar, amigo certo é o das horas incertas: 70 me passar, passa, mas sem atrapalhar. Amigos, amigos, negócios à parte. Vamos conversar porque águas passadas não movem moinho!

Alencar – Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. A amar e a rezar, ninguém pode obrigar. Mas lembro que a amizade é uma gota que pinga no cálice da vida para diminuir seu amargor. E a calúnia é como carvão, quando não queima, suja a mão!

Lula – A sorte faz parentes, escolha faz amigos. A carapuça é pra quem a veste. E quem fala demais, dá bom-dia a cavalo!

Alencar – Mas quem fala a verdade, não merece castigo! A desgraça de quem pede é sujeitar-se a quem tem. Amigo que fala a verdade é o espelho da alma. Cuida com homem que não fala e cachorro que não late!

Lula – E quem fala com surdo, perde o latim. Quem faz aqui acha acolá e quem uma vez faz, faz duas, faz três!

Alencar – Até aí morreu o Neves. Quanto aos juros do Palocci, burro velho não muda de opinião: quem foi mordido de cobra, tem medo até de minhoca e quem foi picado de escorpião, até sombra espanta.

Lula – Quem entende do que fala, não fala do que não entende. Quem dos outros fala e murmura, pouco pensa e muito se aventura. O que o companheiro precisa entender é que a maneira mais rápida de tocar uma boiada é devagar. A gente é que sabe onde o sapato aperta!

Alencar – O Palocci tá mais agarrado nos juros que carrapato em costa de animal peludo. Aproveita o que diz o velho e valerá por dois o conselho. São quatro as piores coisas da vida: juro alto, cerveja quente, boi doente e a mulher da gente. Mas atrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher.

Lula – Cada cabeça uma sentença. A inflação ainda é braba como potranca mal marcada, quando de cola alçada se alvorota. Caldo de galinha e água benta não fazem mal a ninguém. Pois casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Coceira na mão de pobre é sarna, na mão de rico é dinheiro!

Alencar – Coitados dos carneiros, quando os lobos querem ter razão. Com banqueiro e mulher de bigode, nem o diabo pode. O Brasil tá parado e com bochecha cheia ninguém assopra. Concorda ou sem corda? Comigo é na inhama, 1 quilo de carne e dois de banha. De que adianta o vento a favor, se não se sabe pra onde virar o leme?

Lula – Companheiro, Deus dá o frio conforme o cobertor. Deus dá a farinha, mas não amassa o pão. O apressado come cru e vamos devagar com o andor que o santo é de barro. Só te peço uma coisa: em boca fechada não entra mosquito!

Alencar – A verdade é como azeite, mais cedo ou mais tarde vem à tona. Cada porco no seu chiqueiro, cada pinto no seu poleiro. Quanto ao Palocci, não como gato por lebre: de médico e de louco, todos nós temos um pouco!

Assim que o vice Alencar se retirou, Lula chamou Olívio Dutra num canto:

Lula – Então, índio velho, o que achaste?

Olívio – Bá, tchê! Em briga de irmão, não se dá opinião. Mas acho que companheiro Alencar tá mais folgado que colarinho de palhaço e, no governo, tá mais perdido do que lesma em gelatina!

Até domingo, porque besteira pouca é bobagem.

continua após a publicidade

continua após a publicidade