Depois do elegante bate-boca entre o vice José Alencar e o presidente Lula, realizado no meio da semana para acabar com a desconfortável polêmica sobre a política de juros, foi preciso chamar um médico para cicatrizar as feridas. Doutor Palocci, então, reabriu o consultório para examinar a língua do enfezado vice. Na presença da imprensa, Alencar abraçou o doutor, mas, mesmo assim, não deixou claro se vai parar de defender a queda dos juros. Com públicas juras de amor, ambos se retiraram para uma conversa reservada. Os diálogos foram devidamente gravados pelo senador Antônio Carlos Magalhães e publicados abaixo, com absoluta exclusividade.

Alencar – Dr. Palocci, eu não 20 ver, 100 querer! 20 ver para repetir o que eu já disse para o presidente: Amigos, amigos, negócios à parte! A amizade é uma gota que pinga no cálice da vida para diminuir seu amargor. Mas quem fala a verdade, não merece castigo! Amigo que fala a verdade é o espelho da alma. Cuida com homem que não fala e cachorro que não late! Cantiga velha não custa entoar. Também disse pro presidente: você, meu caro Palocci, tá mais agarrado nos juros que carrapato em costa de animal peludo. Aproveita o que diz o velho e valerá por dois o conselho. São quatro as piores coisas da vida: juro alto, cerveja quente, boi doente e a mulher da gente. Com todo respeito à dona Marisa, ressalvo que atrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher.

Palocci – E eu vou repetir o que falou o presidente: a inflação ainda é braba como potranca mal marcada, quando de cola alçada se alvoroça. Caldo de galinha e água benta não fazem mal a ninguém. Pois casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão.

Alencar – Então repito também o que ele ouviu de mim: coitados dos carneiros, quando os lobos querem ter razão. Com banqueiro e mulher de bigode, nem o diabo pode. O Brasil tá parado e com bochecha cheia ninguém assopra. Comigo é na inhama, 1 quilo de carne e dois de banha: de que adianta o vento a favor, se não se sabe pra onde virar o leme?

Palocci – Eu também não engulo gato por lebre: é verdade, por você dito, que de médico e de louco, todos nós temos um pouco?

Alencar – A assombração sabe pra quem aparece! Mas a boa vontade faz do longe perto e a boca fala do que o coração está cheio. O doutor bem sabe que a dor ensina a gemer. Dito pelo não dito, sempre digo que a economia é a base da porcaria.

Palocci – Mas a esmola, quando é muita, até o santo desconfia.

Alencar – Pois é o que eu acho do Fome Zero. Diz Duda Mendonça que a fome é o melhor tempero.

Palocci – Até concordo: a fome faz a onça sair do mato! A grandes males, grandes remédios!

Alencar – Então digo e repito: de marqueteiro, de economista, de médico e de louco, todos nós temos um pouco!

Palocci – A noite é boa conselheira, seu Alencar. A voz do povo é a voz de Deus: água morro abaixo, fogo morro acima, mulher devassa e inflação desenfreada não têm jeito! E é aí que a porca torce o rabo. Antes cautela que arrependimento. Vamos botar uma pedra sobre o assunto: abrir guarda-chuva, dentro de casa, atrai chuva na certa. Boca fechada é um botão, aberta é um mundão!

Alencar – Árvore velha não é fácil de arrancar e batendo o ferro é que se vira ferreiro: bom é saber calar, até o tempo de falar. Burro calado se torna sábio. Anote no caderninho: cachorro velho, quando late, dá conselho!

Palocci – Então ficamos de combinação: cada macaco no seu galho!

Alencar – E cada louco com sua mania!

Até quarta-feira e vamos em frente, que cavalo de campo não come pasto cortado!

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