DE: Luiz Inácio Lula da Silva / PARA: Ministro Zé Dirceu / C/C: Antônio Palocci, Zé Genoino, Luiz Gushiken e Marta Suplicy.
ASSUNTO: O capitalismo ideal.
Companheiros e companheiras: nesta virada para o segundo ano de mandato, concluí que não sabemos que bicho vai dar deste nosso governo. Por enquanto, apenas engazopamos o eleitorado com a herança maldita dos tucanos. Estamos num chove não molha, administrando a cartilha do FMI e tocando o barco com a bússola do Malan. Precisamos sair do armário e optar por um capitalismo ideal para o Brasil e para o PT. Nessas minhas andanças pelo mundo, pude observar o capitalismo praticado em outros países: na sua essência essência, companheiros, o capitalismo é o seguinte: você tem duas vacas. Vende uma e compra um touro. Eles se multiplicam, e a economia cresce. Você vende o rebanho e aposenta-se, rico! Mas, como bem observei do avião, temos outras variáveis:
CAPITALISMO AMERICANO: Você tem duas vacas. Vende uma e força a outra a produzir leite de quatro vacas. E fica surpreso quando ela morre.
CAPITALISMO FRANCÊS: Você tem duas vacas. E entra em greve porque quer três.
CAPITALISMO CANADENSE: Você tem duas vacas. Usa o modelo do capitalismo americano. As vacas morrem. Você acusa o protecionismo brasileiro e adota medidas protecionistas para ter as três vacas do capitalismo francês.
CAPITALISMO JAPONÊS: Você tem duas vacas. Redesenha-as para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal e produzam 20 vezes mais leite. Depois cria desenhinhos de vacas chamados Vaquimon e os vende para o mundo inteiro.
CAPITALISMO ITALIANO: Você tem duas vacas. E todas de propriedade da Parmalat.
CAPITALISMO BRITÂNICO: Você tem duas vacas. As duas são loucas.
CAPITALISMO HOLANDÊS: Você tem duas vacas. Elas vivem juntas, não gostam de touros e tudo bem.
CAPITALISMO ALEMÃO: Você tem duas vacas. Elas produzem leite regularmente, segundo padrões de quantidade e horário previamente estabelecido, de forma precisa e lucrativa. Mas o que você queria mesmo era criar porcos.
CAPITALISMO RUSSO: Você tem duas vacas. Conta-as e vê que tem cinco. Conta de novo e vê que tem 42. Conta de novo e vê que tem 12 vacas. Você pára de contar e abre outra garrafa de vodca.
CAPITALISMO SUÍÇO: Você tem 500 vacas, mas nenhuma é sua. Você cobra para guardar a vaca dos outros.
CAPITALISMO CHINÊS: Você tem duas vacas e 300 pessoas tirando leite delas. Você se gaba de ter pleno emprego e alta produtividade. E prende o ativista que divulgou os números.
CAPITALISMO HINDU: Você tem duas vacas. Ai de quem tocar nelas.
CAPITALISMO ARGENTINO: Você tem duas vacas. Você se esforça para ensinar as vacas mugirem em inglês. As vacas morrem. Você entrega a carne delas para o churrasco de fim de ano do FMI.
Companheiros: finalmente, temos então o capitalismo brasileiro, nossa herança maldita: o brasileiro tem duas vacas. Uma delas é roubada. O governo cria a CCPV – Contribuição Compulsória pela Posse de Vaca. Um fiscal vem e lhe autua, porque embora você tenha recolhido corretamente a CCPV, o valor era pelo número de vacas presumidas e não pelo de vacas reais. A Receita Federal, por meio de dados também presumidos do seu consumo de leite, queijo, sapatos de couro, botões, presume que você tenha 200 vacas e para se livrar da encrenca, você dá a vaca restante para o fisco deixar por isso mesmo. E para não deixar tudo assim tão simples, aumentamos então a Cofins da vaca, para não deixar o rebanho ir pro brejo.
Saudações, do companheiro Lula. Lembrando que sábado tem picanha da vaca lá no Torto.
Até sexta-feira, com um lembrete: amanhã tem a “Festa do fico ou não fico?”, lá no Distinto Cavalheiro. Quem fica para o Carnaval, vai de camiseta “Eu fico!”. Quem não fica, enverga a camiseta do “Não fico!”.