Do Bigorrilho ao Leblon

Devagar se vai ao longe, do Bigorrilho ao Rio de Janeiro. A história resumida de um pequeno bar de Curitiba, com apenas oito mesas, e que agora vai ao Rio de Janeiro mostrar o seu valor.

O Bar dos Passarinhos está voando longe. Com as bênçãos do padre Gabriel Figura, pároco da Igreja dos Passarinhos, o ex-executivo Marco Dolabella está arrumando tralhas e treinando pessoal para mostrar além do Rio Atuba as delícias da cozinha curitibana. Parceiro de sócios locais, em março inaugura uma filial em Cuiabá e, logo a seguir, vai botar banca num dos endereços mais cobiçados e caros do Brasil: o bairro do Leblon, junto às águas da Guanabara.

Marcos Dolabella, 56 anos, tem uma mesa de boa cepa. É mineiro de nascença, curitibano até morrer. Com carteira assinada pela TAMS, tradicional empresa norte-americana de engenharia de projetos de grande porte, Toshiba e TVA, chutou terno e gravata, comprou um avental na medida e se debruçou para desenhar um bar em Curitiba.

No papel, o desenho tinha três linhas básicas: um lugar simples, petiscos harmoniosos, servidos em seqüência para degustação coletiva dos comensais à mesa. O cardápio não ganhou um desenho abstrato. Acostumado com a leitura atenta de balanços, Dolabella não acredita em intuição. Fez uma pesquisa na região do Bigorrilho, para conhecer o tipo de apetite da vizinhança: tinha fome de frutos do mar.

O local, escolhido a dedo, tinha outro dedo de história: pertencia a um alto funcionário aposentado da Petrobras que inventou de abrir um próprio e exclusivo boteco para reunir os amigos. Pouco maior que uma garagem, tinha um balcão bem fornido de cervejas, uma mesinha de pebolim e uma grande freguesia que se reunia sempre aos domingos, para os matinais aperitivos do pós-missa na Igreja dos Passarinhos – que os filhos de Deus não são de ferro.

Porém, como a vida de inativo não tem patrão e a rotina se fez tédio, o aposentado cansou da lida. Botou o ponto à venda. Dolabella, que também era um dos catequistas daquele pequeno templo etílico, bateu o martelo e ficou com o lugar.

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E assim nasceu, há pouco menos de cinco anos, o Bar dos Passarinhos, que devagar se foi ao longe: melhores petiscos de frutos do mar de Curitiba, segundo a revista Veja, e agora indicado em duas categorias pela revista Gula. Não só ganhou bons atestados na imprensa. Ganhou, principalmente, o aval de uma clientela fidelizada, porque este é um outro segredo do bar que hoje tem filas de espera e aceita reservas.

Em suas oito mesas, sendo uma dos fundos para a ?diretoria?, lá encontramos gente boa, da melhor qualidade: Miguel Krigsner e família, Joel Malucelli, Hermas Brandão, colunista Jader Rocha, Luiz Carlos Martins, dona Nice Braga, dr. João Cândido Cunha Pereira, o cabeleireiro Francesc, o jornalista Luiz Augusto Xavier, arquiteto Bruno de Franco, professor Manika, Carlos Jung, e, por último, mas não menos importante, o fotógrafo e historiador Cid Destefani, que se acomoda escondido do distinto público, sempre em pé, para uma única e regulamentar cerveja. É um público heterogêneo, digamos, contando com o governador Roberto Requião, seus devidos pares de governo, e a sofisticada turma do ex-governador Jaime Lerner.

***

Ainda no primeiro semestre de 2006, aquela gente bronzeada do Leblon há de se perguntar, antes de provar da melhor ?lula salteada com chimeji? do Brasil:

– Não é um boteco, não é um restaurante. O que é aquilo?

– É um lugar! – vai responder Marcos Dolabella. Um lugar simples, porém sofisticado. O fino parecendo casual. Poucas mesas, labaredas à vista para o flambado que faz parte do espetáculo, enfim, um original lugar curitibano para o carioca se deliciar. 

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