Discreto, Válido, Relativo

A italianada do Brasil atravessa a semana em estado de graça. Segunda-feira comemoraram o Dia Nacional da Itália, com homenagens e comendas. Amanhã, a glória: pela primeira vez os italianos no exterior vão exercer o direito de voto, num referendum onde decidem sobre leis trabalhista e ecológica.

Na parte que me toca, também homenageio a Itália bebendo seus bons vinhos e lendo um delicioso livro sobre os costumes italianos. Em Meus Vizinhos Italianos, o inglês Tim Parks conta sua vida na aldeia de Montecchio, no Vêneto, onde mora desde 1981. Elegante e irônico, Parks transmite tudo aquilo que um inglês típico estranharia num país tão diferente do seu. Quase uma caricatura, é uma crônica retratando personagens do cotidiano, a predileção pelo vinho engarrafado em casa, a amizade, a culinária. Justamente, para nós brasileiros, Meus Vizinhos Italianos tem um sabor especial: reconhecemos nos costumes e na vida italiana muito do que ocorre no Brasil.

Nos reconhecemos até nas leis locais. Assim como no Brasil, sempre há um “jeitinho italiano” de burlá-las. Ou, existem as leis que pegam e as que não pegam: “Há uma coisa que o político italiano percebe de um modo que o seu ingênuo equivalente inglês não o faz: impopular é a aplicação da lei, e não a lei em si, a qual é manifestamente uma coisa boa e constitui a resposta certa para qualquer problema que ela pretenda solucionar, do mesmo modo que é certo para o papa insistir na castidade, desde que cada um faça como melhor entender. Na sociedade anárquica modelar, da qual a Itália quase sempre se aproxima, haverá um sem-número de leis cujo valor nunca será questionado. E, sob esse excelente disfarce, todos viverão como acharem que devem viver”.

Discreto, Válido, Relativo – é a fórmula italiana para discutir política. Uma das satisfações do italiano é achar que, com essas três palavras, ele fez uma análise acurada da situação, apreendeu suas ironias, avaliou os prós e os contras e concluiu como um analista astuto, observando todo o espetáculo à distância.

E essa fórmula pode ser aplicada em qualquer discurso. Sobre dirigir bêbado, por exemplo: “Sim, a nova lei sobre dirigir embriagado, elaborada discretamente (ou seja, muito bem, com inteligência, até talento), na verdade é na maior parte válida (sensata, funcional), mas tudo isso é relativo (só tem importância secundária), já que os instrumentos para a aplicação da lei não estão disponíveis ou, se estão, ninguém tem intenção de usá-los”.

Mais um copo de vinho, e a fórmula se aplica sobre as estradas italianas: “A malha italiana de autostrade é sem dúvida discreta, o asfalto e a sinalização são sempre válidos, mas tudo isso é relativo, pois, com o preço exorbitante da gasolina e as taxas de pedágio muito altas, é preciso ser realmente rico antes de poder utilizá-la habitualmente”.

Assim na Itália, como no Brasil: Discreto, Válido e Relativo pode ser aplicado perfeitamente na atual conjuntura política brasileira.

– O governo Lula é sem dúvida discreto. O programa Fome Zero, o conservadorismo do ministro Palocci, o excepcional carisma do presidente, são sempre válidos. Mas tudo isso é relativo, pois, com tanto desemprego, os salários arrochados e a economia assim estagnada, mudamos para continuar do jeito que estava.

Até sexta-feira, assim sendo: Discreto, Válido, Relativo. E estamos conversados.

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