Está em fase final de edição e será lançado no início de outubro o Botecário (Dicionário Internacional de Sobrevivência no Boteco, sem mestre). Será um pequeno livro de bolso ilustrado, com frases, expressões e palavras imprescindíveis num boteco. Desde a clássica pergunta “onde é o banheiro?”, como solicitar um chope com colarinho e, importante, indagar se a garçonete é casada. Pauca, sed bona: poucas coisas, mas boas. O glossário, ou dicionário de termos técnicos de botequim, foi vertido para quase vinte idiomas, entre eles o indiano, indonésio, o polaco, o gauchês e até o mais castiço catarina.
Por cautela, foi incluído no Botecário uma versão livre para o latim, pois no céu ou no inferno há de ter um boteco, como conta uma história que se passa em Paris. Em mesas vizinhas de um bistrô, o jovem estrangeiro bebendo vinho e estudando literatura e um senhor de respeitáveis oitenta e tantos anos, bebendo café e estudando latim. Convenhamos, um ancião estudando latim em Paris não é lá tão curioso quanto possa parecer. Mas o jovem era curioso.
– Pardon monsieur, mas por que o senhor está estudando latim, agora neste estágio da vida?
– Elementar, meu caro jovem. Como você observou, por que estudar uma língua morta, à beira da morte? Eu venho de longe, já atravessei Adolf Hitler e estou atravessando George W. Bush. Bien sur… se estudo latim, é porque sou um velho prevenido. Quando partir desta para a melhor, quero sentar num bistrô do céu já falando perfeitamente a língua local. No paraíso, todos falam latim: o Todo-Poderoso, os anjos e todos os santos.
– Pardon monsieur, o inferno é uma outra possibilidade a se considerar.
– Bien sur… considerando o infortúnio, sem problemas: falo fluentemente inglês e alemão.
Traduzir para o latim um dicionário técnico de botequim não é tarefa fácil para comuns mortais. Quid – o ponto difícil – é que não há como saber, por exemplo, se nos campos celestes se cultiva a cevada e, por conseguinte, se os agraciados com a graça divina têm o privilégio de apreciar um chope dos deuses. Hic jacet lepus, aqui está a dificuldade: até mesmo os mais eruditos latinistas teriam dificuldades em verter para o latim expressões do tipo “com colarinho” ou “sem colarinho”.
Rebus sic stantibus, nessas circunstâncias, com a ajuda do livro Não perca o seu latim, de Paulo Rónai (tendo Aurélio Buarque de Holanda como colaborador), nos apropriamos da coletânea de palavras e frases freqüentemente citadas para compor o dicionário técnico em latim. Post mortem, no céu ou no inferno, há de ter um boteco. Assim, com o Botecário no bolso, o paraíso fica ao alcance de todos. Prosit! À sua saúde; e abaixo alguns exemplos.
Saudação – Ave atque vale (Salve)
Estou muito feliz de estar aqui neste bar – Hic manebimus optime (Aqui ficaremos bem)
Já está fechando? – Fugit irreparabile tempus (Foge irreparavelmente o tempo)
Essa é pro santo! – Permitte divis cetera (Deixa o resto aos deuses)
Acabei de jantar – Plenus venter (Ventre repleto)
Mais uma rodada – Pro tempore (Segundo tempo)
Ele(a) está na fossa – Vivit sub pectore vulnus (A ferida vive no fundo do peito)
Salve, velho amigo! – Ave, Senex!
Pode nos servir – Alea jacta está(A sorte esta lançada)
Hoje estou com sorte – Fortes fortuna adjuvat (A fortuna ajuda os fortes)
Esse(a) é mala! – Frontis nulla fides (Não se deve confiar no semblante)
Rápido, por favor – Periculum in mora (A demora é perigosa)
O garçom é lento – Hic jacet lepus (Aqui está a dificuldade)
O garçom é ligeirinho – Hic et nunc (Aqui e agora, imediatamente)
A saideira – Nil amplius oro (Nada mais peço)
Vamos dividir a conta – Per capita (Por cabeça)
A conta, por favor – Ad valorem (Conforme o valor)
Aqui é tudo muito caro – Ad absurdum (Absurdo)
Sobrou apenas algum para o táxi – Omnia mea mecum porto (Levo comigo tudo o que tenho)
Até sexta-feira; e como diz o comercial da cerveja – Uti, non abuti (Usar, não abusar).