Diário da crise

Não vai sobrar pedra sobre pedra, vou cortar da minha própria picanha, mas deixo para a posteridade meu testemunho da história, aqui registrado nesse caderninho de memórias.

Telefonei ontem para o ministro da Justiça e lhe passei ordens expressas: vamos limpar o Brasil! Se preciso, até com detergente. Thomaz Bastos é o meu melhor ministro, o único que entende minhas palavras. Assim ele me respondeu: – Positivo, presidente… deter gente!

O primeiro a ser detido -comuniquei ao ministro – é o engraçadinho que botou no meu bolso esta oração, durante uma reunião com a minha base de apoio. Li a oração ao ministro, escrita numa folha de papel almaço: "Senhor, fazei-me instrumento de sua atenção, e assim onde tiver gorjeta, que eu leve um milhão; onde houver acerto, que vença o meu preço; onde houver mutreta, que eu receba a mala preta; onde houver ócio, que eu feche o negócio; onde houver propina, que não fique na esquina; onde houver esquema, que eu entre logo em cena; onde houver jabá, que eu possa me arrumá; onde houver prazo, que eu receba à vista. Ó Mestre… Fazei com que eu continue honrando a confiança pra que me dêem cheque em branco, e que eu fique sempre querido pra não ser inquirido, pois é dando que se recebe, e é só recebendo que se vota e é só com grana que a gente derrota".

Após um longo silêncio, o meu amigo Thomaz Bastos respondeu: – Presidente, isso tem jeito de ser coisa da bancada do PL, ou dos vendilhões do templo? Eu respondi: – Não sei, e não quero nem saber. Como também nunca fiquei sabendo desse mensalão do companheiro Delúbio. Estou chegando à conclusão que "dilúvio" quer dizer muita água e "delúbio" muita lama. Não nasci pra Noé. Não vou navegar sozinho nesse mar de lama, administrando esse zoológico político.

Sempre tive muito carinho pelo Delúbio, como também sempre tive grande apreço pelo Roberto Jefferson, este Pavarotti com o balão no estômago e o rei na barriga. Quantas vezes o convidei para cantar em palácio! Quantas vezes chorei ouvindo o "Sole mio"! Quando ele se internou para fazer a operação de diminuição do estômago, até mandei flores. Ah, se eu soubesse que para os inimigos não se mandam flores! Ah, se eu soubesse que ele não diminuiu o estômago… aumentou a língua!

Preciso espairecer, esfriar a cabeça, porque esses meus companheiros estão me deixando de barba preta, cabelos mais pretos que a asa da graúna. Vou fazer um churrasco. Vou cortar da minha própria carne, fornecida pelo ministro da Pesca. E que essa CPI do mensalão não termine em pizza. Que ela termine numa picanha sangrando, um costelão de ripa, uma fraldinha no ponto.

Só bebendo, pra esquecer essa encreca em que me enfiaram. Como se não bastasse a Folha de S. Paulo, até o Larry Rother voltou a pegar no meu pé. É muita perseguição: o The New York Times acaba de publicar que o governo "sempre soube de tudo", e que "importantes autoridades no PT" tomaram parte ativamente no esquema do "mensalão". Vou fazer um aperitivo. Mas se esse depoimento do Pavarotti carioca for apenas um aperitivo? Quem vai pagar a saideira é o Zé Dirceu! "Sai daí, Zé Dirceu! Sai daí rápido para não fazer mal a um homem inocente, correto!" O que o Pavarotti carioca quis dizer com isso? Ai, meu São Benedito! Será que ele está dizendo pro Zé plantar batatas em Cruzeiro do Oeste?

Tirante o Roberto Jefferson, sinceramente, nunca vi esse mensalão mais gordo. Mas que algumas coisas não cheiravam bem nesse meu reino da Dinamarca, isso eu desconfiava: mandava um projeto de lei pro Congresso e recebia de volta uma tabela de preços. Na base governista, toda vez que alguém pedia um cafezinho pra secretária, ela respondia: – Quanto eu vou levar nisso? Deputado atendia o telefone, reconhecia a voz e dizia: – Isto é uma gravação: ao ouvir a mensagem, deixe o sinal!

Os companheiros passaram a ter medo do Pavarotti carioca. Meu querido diário… alguma coisa está errada nesse meu reino da Dinamarca.

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