"A corrupção da alma alcançou o ponto limite, estamos gangrenados. Pode haver uma sociedade pré-revolucionária e ao mesmo tempo decadente, incluindo na decadência e na degradação as classes pobres? Pode haver, sim. Vivemos nela." (José Carlos Oliveira)
O mais polêmico cronista da geração dos anos 60s ressuscitou num cruento livro de 512 páginas, capa vermelha, de deixar rubros os de alma pura e vermelhos de raiva seus desafetos ainda vivos. Em cada página uma tormenta e assim vamos perambulando pelos parágrafos, como se fosse o autor atravessando Ipanema, de bar em bar. Diário Selvagem, de José Carlos Oliveira, (Editora Civilização Brasileira, organizado pelo escritor e jornalista Jason Tércio) é mais do que um soco no estômago. É um coice no pâncreas, um tapa para acordar o espírito.
Carlinhos Oliveira assinava antológica crônica no Caderno B no Jornal do Brasil. Morreu de pancreatite crônica. Em fevereiro de 1979, foi a Paris com a intenção de lá trabalhar por seis meses. Levou consigo a máquina de escrever e a recomendação de fazer exames para descobrir a causa exata das dores intermitentes que ele vinha sentindo sem obter nenhum diagnóstico preciso no Brasil, mais por falta de tecnologia que de competência dos médicos. Em Paris foi diagnosticada a pancreatite, já em estágio avançado. Ficou em Paris apenas dois meses. Retornou ao Brasil para concluir a sua obra literária e o diário que começou a escrever em 14 de novembro de 1971. Morreu em 1986, "ferido de morte pela doença, envelhecido, desdentado, maltratado", para usar de suas próprias palavras.
Diário selvagem é uma narrativa densa, com trechos até escrotos, parte bula de remédio: "Pancreatite Futebol Clube: Digesan, Tagamet e Viokase; meio mamão, coalhada e limão; Spasmoplus preventivo, chá com limão; Mylantaplus, saco de água quente e (salvação da pátria) Sertal. Emergência: Algafan no bumbum. Falta urgente: Lorax-bis!! Entrou no time às 7h".
Carlinho Oliveira era também craque no humor, com um mérito permanente: a linguagem coloquial, sofisticada, com um timbre da mais refinada literatura. Uma permanente interação entre o cotidiano do jornalista e boêmio profissional e a vida política, social e cultural do Rio de Janeiro. Dia após dia, o autor de Terror e êxtase registra a arte da observação em sua convivência com intelectuais e militantes políticos, executivos e jornalistas, empresários e artistas, dondocas e jovens rebeldes da classe média.
Sobretudo, Oliveira registrou o Brasil, antevendo o futuro: "Dizem do brasileiro que é um ser lúdico: o homem que brinca. Queremos dizer: não é um ser moral. Mais adiante um pensador avança a teoria de que esse homem não tem caráter; vem um escritor e num passe de mágica, ou seja, ludicamente, inventa a saga do herói brincalhão, sem nenhum caráter, exposto a mil e uma metamorfoses, o malandro inocente, Macunaíma. Chegamos ao homem cordial: aquele que pensa com o coração. (…) De tudo isso, porém, não sobra nada. Ficamos com o enigma à nossa frente: o brasileiro. Que espécie de animal racional é esse? Seria um quadrúpede degenerado, que teria nascido com dois pés antes de percorrer o caminho evolutivo da espécie? Porque, se há uma coisa que não se pode negar é que o brasileiro se improvisa. O brasileiro não é: ele se faz, mas não se faz em definitivo: ele se experimenta; troca de idéias como as cobras trocam de casca. É um ser experimental.
Se Carlinhos Oliveira ainda hoje perambulasse pelas noites cariocas, ele escreveria assim num guardanapo: Luiz Inácio das Silva se fez, mas não se fez em definitivo: ele se experimenta; troca de idéias como as cobras trocam de casca. É um ser experimental.