O prefeito Beto Richa anunciou ontem a realização em Curitiba do ?Dia sem carro?. Pede aos motoristas que aproveitem esse dia para usar outros meios de transporte e pensar no bem que o uso racional do automóvel pode fazer para o meio ambiente, para a saúde das pessoas e para a mobilidade urbana.
A Jornada Internacional da Cidade sem o meu carro começou na França, em 1998. Tomou corpo por toda a Europa e – como o atraso é o nosso forte, e o correio atrasou – só chegou no Brasil em 2001. Curitiba aderiu em 2003. Algumas notinhas de almanaque para ler no ônibus: Sabia que em Bogotá, Colômbia, o Dia sem carro acontece uma vez por mês? Sabia que mais de 40 países, somando mais de mil cidades ao redor do mundo, participam do Dia da Cidade sem o meu carro? Sabia que 80% do óleo consumido pelos carros no Brasil é queimado ou despejado na natureza? Sabia que o carro pesa 30 vezes mais que os passageiros que ele carrega? Portanto, a gasolina utilizada no carro é quase toda gasta para mover o próprio carro, e não seus passageiros? Sabia que 40% da poluição do ar é produzida pelos transportes? Sabia que para transportar 50 pessoas em ônibus são ocupados 54m de rua, sendo que, usando carros, o espaço ocupado é de 267m? Quase oito vezes mais espaço! Sabia que em Belo Horizonte e no Estado de Santa Catarina o Dia sem carro é lei?
Jovem, esbelto, aficionado por automobilismo e várias vezes campeão de kart, o prefeito Beto Richa tem um perfil bem apropriado para fazer bonito como garoto propaganda do dia 22. Passaria credibilidade uma caminhada do automobilista, de seu apartamento no bairro do Mossunguê até a sede da Prefeitura. Com o Rubinho Barrichello atrás, é claro.
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A conversão de Beto Richa para o pedestrianismo só não causaria mais impacto caso o dia do pedestre ganhasse o apoio público do escritor Dalton Trevisan. Digamos, a veiculação de um filme com o Vampiro de Curitiba saindo de seu reduto no Alto da Rua XV. Dalton entra na garagem lúgubre e vazia, senta-se num banquinho, calça uma galocha e sai a pé em passos lentos. A câmara se aproxima e o Vampiro declara, apontando para os automóveis que passam.
– Chatos de galochas são eles. Eu sou pedestre!
Não são raros os curitibanos que cruzam com Dalton Trevisan andando pelas ruas da cidade. Raros são aqueles que se atrevem a estorvar as diárias andanças, e mais raros ainda os que um dia já enxergaram o escritor dentro de um automóvel.
Alguém há de perguntar: e nos dias de chuva, como se locomove o Vampiro? Ora, de galochas!
Justiça seja feita, é preciso citar outros de nossos escritores que seguem o exemplo de Dalton Trevisan. Quem vê a fina silhueta de Manoel Carlos Karam não imagina que ele trocou uma antiga barriga de estimação por muitas e muitas solas de sapato. Wilson Bueno é outro que nunca na vida vai precisar prestar contas ao Detran. Pedestre militante da mesma facção do jornalista Luiz Geraldo Mazza, o cronista Carlos Alberto Pessôa é um desperdício: de tanto perambular pelas ruas de Curitiba, podia ganhar a vida como guarda-noturno, não fosse ele um notívago de belas letras.
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Quando o prefeito Beto Richa corria nas pistas, o empresário João Zagonel era muito procurado para patrocinar carros de competição, e não se negava. O proprietário da Imobiliária Casaredo só impunha uma condição: fazia questão de patrocinar o carro do piloto mais lento da temporada. Zagonel tinha a sua lógica, dentro do que se propunha a anunciar nas pistas:
– Casaredo oferece: Alto padrão no Batel, c.duplex, 4ds(stes), piscina c/deck, 3vg., 200 m2, a.u., arms., lavand., playgr., qdra poliv., sauna, aceito carro no negócio.
Diz a banda oposicionista que o piloto Beto Richa recebia patrocínio da Casaredo, mas não há registros.