Dia de encher linguiça

Porque hoje é sábado, dia de feijoada , muitos lambem os beiços por um prato de torresminhos e ninguém lembra do sacrifício que antecede os prazeres do colesterol in natura. Nesses tempos elétricos, a matança de um porco representa um caminhão frigorífico entregando carcaças no supermercado, a costeleta já temperada na churrasqueira, os embutidos na mesa e a bisteca sendo descongelada no forno de microondas. Nos tempos de lamparina e fogão a lenha, sim, a matança do porco era uma festa de vizinhança. E o velho paiol no fundo da casa colonial se transformava numa oficina de odores e sabores.

A morte anunciada do porco começava na ceva, quando a melhor lavagem e as maiores porções de grãos e vegetais privilegiavam o eleito. A gordura e o peso do animal eram conferidos regularmente, até que chegasse a hora. Dias antes, a vizinhança já sabia do grande evento; no dia anterior a lide começava com a limpeza dos caldeirões, frigideiras e panelas, o afiar das facas, o frenesi da gurizada contando histórias macabras do matador e sua faca pontuda.

Na manhã seguinte, o porco amanhecia de rabinho erguido, desconfiado, adivinhando o destino de seu próprio sangue: a morcilha. Quando o matador de faca pontuda pisava no quintal, as crianças já estavam escondidas embaixo da cama de tanto medo. E o porco esticado sobre uma mesa improvisada com tábuas, se debatendo, urrando, chutando os quatros carniceiros fortes e experientes que seguravam o bicho. Quando o bicho se rendia em lenta agonia, em grunhidos cada vez mais espaçados, a respiração sumindo, o jorro sanguíneo um fiapo, as crianças se aproximavam arregaladas para assistir ao bicho ser içado pelos carniceiros numa viga elevada, pelas patas traseiras, com o focinho quase arrastando no chão. Ao lado, no fogo de chão fervia a água do caldeirão para raspar o pelo do animal, que, esfregado e lavado, tinha a barriga aberta do rabo até a garganta.

Quem parte, reparte, para os meninos a melhor parte era a bexiga, que assim iam dormir em paz com a bola de futebol embaixo da cama. Inclusive este cronista, que depois de velho continua enchendo linguiça.

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