continua após a publicidade

Em plena Guerra das Malvinas, perguntaram ao escritor Jorge Luis Borges o que ele achava do conflito entre argentinos e ingleses. Com fina ironia, Borges propôs uma solução generosa: ?Essa disputa precisa ser resolvida com diplomacia. Argentina e Inglaterra desistem da posse e entregam as ilhas para a Bolívia, que tanto precisa de um pedaço de mar?.

O argentino Jorge Luis Borges era cego e por isso mesmo tinha visão melhor da escuridão na América Latina. Outro que tinha uma privilegiada visão do continente era o Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores do Brasil que na época teria trocado o território do Estado do Acre, que pertenceu à Bolívia e ao Peru até 1913, por um cavalo -segundo Evo Morales.

O errático Evo Morales foi democraticamente eleito, reflete a opinião de seus eleitores e pode até estatizar o fluido de isqueiro para acender o charuto de Fidel Castro. Mas pelos ruídos da cavalgadura, a diplomacia boliviana deve ter aprendido a se movimentar com o cavalo de Simon Bolívar.

continua após a publicidade

Tratando o Brasil como um jumento, Morales também acusou a Petrobras de contrabando, sonegação e de agir ilegalmente na Bolívia. A entrevista de Morales aconteceu na Suíça e as declarações do boliviano pareciam ter vindo de um estadista formado nos ?alpes suínos?.

Na outra ponta da mesa, o presidente Lula restou com um gosto acre na boca, compenetrado na leitura do livro Como fazer amigos e influenciar pessoas.

continua após a publicidade

?Muy amigo?, Lula está precisando consultar a história do Brasil: o território do Acre foi ocupado por seringueiros no final do século 19 e acabou sendo comprado pelo Brasil, em 1903, por dois milhões de libras esterlinas, pagos aos governos boliviano e peruano, além do pagamento de uma indenização de 110 mil libras esterlinas ao arrendatário da área, The Bolivian Syndicate.

Curiosa essa implicância de líderes populistas com os cavalos. Hugo Chávez, por exemplo, mudou a posição e a direção do cavalo estampado há séculos no brasão da Venezuela. Rosinés, sua filha de oito anos, reclamou ao papai que não gostava do cavalo indo para a direita e olhando para trás. Pronto! Chávez descobriu no eqüino um símbolo reacionário: ?É um cavalo que alguém freou e olha para o passado?. Cavalo engajado, agora está estampado como quem vai para a esquerda e olha para frente.

A versão de Morales de que o Acre teria sido trocado por um cavalo lembra outra história malcontada: em 1623, a Holanda teria comprado a Ilha de Manhattan pela bagatela de 24 dólares. Ou seja, calculando-se que naquela época um cavalo custava bem menos que um dólar, com 24 dólares se podia comprar a Bolívia com o Acre anexo.

A história de Nova York revista no livro A ilha no centro do mundo, de Russel Shorto, desmontou a versão da compra por 24 dólares. Na verdade, os holandeses compraram a própria paz e proteção na ilha dos nativos moicanos. Como os indígenas não conheciam dinheiro, havia um pagamento regular em quinquilharias para evitar os seguidos massacres de colonos. Colares, machadinhas, serrinhas, no valor de 60 guilders (moeda holandesa), que depois a lenda transformou em 24 dólares.

No entrevero com a Bolívia, alguém bebeu demais. De fato, a história tem pinguço no meio: consta que José Manuel Pando Solares, que presidiu a Bolívia entre 1889 e 1904, vivia bêbado e, num dos porres, trocou o Acre por um cavalo de raça que levou para sua própria fazenda.

Relembrando Jorge Luis Borges, essa pendência histórica do Brasil com a Bolívia deve ser resolvida com diplomacia: devolvam o cavalo a Evo Morales e não se fala mais nisso.