Sono, muito sono. Um profundo sono, é o que resta depois de assistir ao debate e ao desfile de máscaras no horário eleitoral gratuito no rádio e televisão. De dois em dois anos, o mesmo discurso, as mesmas frases, a mesma ladainha milagreira. Mudam os personagens, mas não mudam as máscaras.

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No debate e no horário eleitoral, Geraldo Alckmin sentou na cadeira vazia do candidato Luiz Inácio Lula da Silva – como fiel discípulo de Fernando Henrique Cardoso, também é fujão – e passou a debulhar aquele velho discurso para a população de baixa renda do candidato petista: restaurantes populares, distribuição de remédios, transporte bom e barato, acenos aos idosos. Para os mais favorecidos do destino, redução de impostos e juros de mão beijada; que ninguém é de ferro.

Com sua surrada retórica, Luiz Inácio da Silva estreou no TRE protegendo o seu particular telhado de vidro, muito maior que as janelas de vidro do Palácio do Planalto: tirou o corpo fora das denúncias de corrupção e devolveu as pedradas a todos os partidos responsáveis pelo pesadelo ético que não o deixa dormir: ?A crise ética que abateu todo o país é a crise de todo o sistema político e não apenas de alguns partidos ou de determinadas pessoas. Os que cometeram erros precisam ser punidos?.

O futuro? Que futuro? Nosso messias de plantão vai continuar obrando o que já obrou, porque a nação nunca dormiu em berço tão esplêndido.

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Heloísa Helena é uma gracinha. Gulosa, abocanhou o debate entre os candidatos e cravou seus delicados caninos nos ex-companheiros petistas. Com pouco tempo na mamata eleitoral gratuita, falou pouco, mas falou afiada. Sua verve foi música aos ouvidos tucanos: ?Dou meu exemplo, cumprindo a minha obrigação de ser honesta. E você, com seu voto, pode dar o exemplo mais belo não votando em político corrupto que engana os pobres e governa para os banqueiros, que finge que não vê roubalheira, mensalão e sanguessuga, mas cinicamente vive em conluio com eles?.

O conterrâneo Fernando Collor de Mello deve estar frouxo de tanto riso. Se continuar a interpretar o discurso que caberia ao pretenso discípulo de Mário Covas, presenteia os tucanos com um promissor segundo turno.

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José Maria Eymael surpreendeu. Ao revelar no debate que nasceu no Rio Grande do Sul, o Risco Brasil tremeu nas bases. Gaúcho é espaçoso e imprevisível por natureza, nunca se sabe em qual obelisco pode amarrar o alazão.

Luciano Bivar deixou no ar uma dúvida: seria ele parente do dramaturgo Antônio Bivar, autor dos clássicos Alzira Power e Cordélia Brasil? Se assim for, os nossos sinceros respeitos.

Cristovam Buarque só pecou pelo cenário, trilha sonora e figurino: em honra a Leonel de Moura Brizola, devia se exibir com o lenço vermelho no pescoço, tendo ao fundo a bandeira nacional – no lugar da bandeira da educação -, e os acordes do hino nacional brasileiro, interpretado pelo pianista Arthur Moreira Lima – ao invés do Samba de uma nota só, de Tom Jobim e Newton Mendonça.

De resto, o teimoso Cristovam Buarque é o postulante mais coerente e sincero, de tanto bater na tecla da educação: ?Não é samba de uma nota só, é samba de uma nota fundamental?.

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Por estranho que pareça, a falácia de ?milhões de empregos? não está sendo o ?samba de uma nota só? deste início de campanha. Quando algum candidato tocar no chavão ?emprego e renda?, ponha para rodar o filme O corte, de Costa-Gavras. Conta a história de um executivo da indústria papeleira que perde o emprego e, após três anos no olho da rua, sai por aí matando possíveis concorrentes a um ambicionado posto.

A concorrência era grande, as vagas eram limitadas e a ambição não tinha limites; e qualquer semelhança com eleições é mera coincidência.