De bitola nova

Nos últimos meses, a imprensa brasileira vem sofrendo um tiroteio por conta da campanha eleitoral que está nos seus estertores. No cerne do desentendimento, a surrada história do marido que, ao flagrar a mulher afagando o vizinho, resolveu a problema botando fogo no sofá. Das palavras que agora desqualificam a imprensa, a mais branda acusa os jornais de bitolados.

Num aspecto os detratores de ocasião têm total razão. De fato, especialmente aqui no Paraná, a nossa imprensa escrita estava bitolada, veiculava numa única bitola.

Bitola, no sentido de medida reguladora, padronizada.

Estava, não está mais. O jornal Tribuna do Paraná mudou de bitola. Do formato standart, passou no início da semana para o formato berlinense. Mais conhecido como berliner – De Berlim, onde pela primeira vez um grande jornal do mundo adotou o tamanho de 470 mm x 315 mm. A medida cuja maior característica é o conforto no manuseio e leitura.

A Tribuna é o quinto jornal no Brasil com a formatação que já conquistou 50% dos jornais europeus – incluindo o Le Mond, na França, La República, na Itália – e ajudou o tradicional jornal britânico The Guardian a sair do buraco. Depois de amargar um longo período de queda nas vendas e de migração dos leitores para jornais rivais, The Guardian perdeu a fleuma e assumiu o formato berliner, junto com uma criativa reforma gráfica. As vendas do jornal aumentaram 40% no dia do lançamento do novo formato e, o que é significativo, a Sociedade de Desenhos de Jornais (SND) escolheu o Guardian – tiragem de 395 mil exemplares – como o mais bem desenhado do mundo, ao lado do polonês Rzeczpospolita. O prêmio concedido ao The Guardian em 2005 teve um significado especial, justamente por ter abandonado o formato standard naquele ano. Se o objetivo era conquistar novos leitores, principalmente os jovens, e facilitar a leitura dos que têm o hábito de ler no transporte público, quem apostou no berliner viu a circulação aumentar.

Na América Latina são vários os jornais com o jeitoso formato, o mais tradicional é diário Clarín, de Buenos Aires. Aqui no sul é notável o sucesso dos veículos da rede RBS, todos em formato tablóide, pouco menor que o berliner.

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Quem te viu, quem te vê. A Tribuna do Paraná de cara nova ficou uma ?tetéia? – como se dizia antigamente. Ficou ?massa?, como se diz hoje.

Mudou o formato e manteve o mesmo desenho gráfico. Ao contrário do que as boas famílias do ramo recomendam. O casamento deu certo, parece que nasceram um para o outro.

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No dia seguinte à metamorfose da Tribuna do Paraná, o cronista esportivo Augusto Mafuz saudou a nova forma de seu jornal com um texto que merece ser recordado. Mandou bem o intrépido Augusto Mafuz; e também assino embaixo.

?Não canso de reclamar que às vezes me sinto cansado de escrever. Mas a minha relação de sentimentos com a Tribuna do Paraná impede-me de ir além de reclamar. O sentimento da causa não está apenas na relação com pessoas, que me viram começar, mas, também, no princípio adotado como definitivo por ser o único, que é associar o jornalismo à liberdade valorada pelos regimes democráticos. Nem as exceções do regime militar conseguiram golpear esse princípio, embora fosse o Grupo Paulo Pimentel a empresa de comunicação do Paraná que mais tenha sofrido. Apostou contra as exceções, e ganhou, mesmo com frustrações materiais.

A solução pelo novo formato foi iluminada.

Mas se mudou a cara, não mudou o jeito. Continua baseada no velho princípio de que o fato simplesmente noticiado é do jornalismo cômodo e conveniente, que faz o fato envelhecer e morrer enquanto as rotativas trabalham. Preserva-se o fato analisado e contraditado.

Nós, os antigos da Tribuna, jornalistas e leitores, merecíamos esse presente.

Obrigado.

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