Véspera de assumir seu primeiro mandato como prefeito de Curitiba, em 1971, o jovem arquiteto Jaime Lerner precisou renunciar ao cargo de presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) – Departamento do Paraná. Assumiu o vice, o arquiteto Manoel Coelho.
Três vezes prefeito da capital e duas vezes governador do Paraná depois, Jaime Lerner foi empossado presidente da União Internacional dos Arquitetos, numa cerimônia no Bundestag Deutschen Arkiteten, a sede do instituto dos Arquitetos da Alemanha, em Berlim. Depois da posse, Lerner viajou a Paris, onde foi conhecer a sede e a estrutura administrativa da UIA, na rue Raynouard, 51, seu endereço europeu para os próximos três anos.
Quando retornar a Curitiba, vésperas de entregar o mandato ao sucessor, o governador do Paraná deve marcar um prazeroso encontro com velhos amigos. E um deles vai receber um abraço muito especial: o arquiteto Manoel Coelho.
Há quase seis meses, foi Manoel Coelho que levou à mesa de Jaime Lerner, no Chapéu Pensador, uma ousada proposta: lançar a candidatura para a presidência da UIA, com o apoio da maior instituição brasileira da classe: o arquiteto Oscar Niemeyer. Jaime Lerner ficou de pensar na idéia. Na etapa final da partida, já segundos finais da prorrogação, como sempre, Lerner decidiu ligar para Manoel Coelho, num domingo à noite: – Coelho, como é mesmo aquela história de disputar a presidência da UIA?
Essa é a história. No encerramento do Congresso e Assembléia Mundial de Arquitetos, em Berlim, Lerner recebeu 128 votos contra 125 do alemão Andreas Hempl, no segundo turno. Uma expressiva vitória, tipo assim: conseguir derrotar o Ricardo Teixeira para presidência da CBF, em pleno Maracanã.
Dentre tantos amigos que devem correr para o abraço, um deles não vai estar presente. Assim como Manoel Coelho, o jornalista Aramis Millarch era companheiro de primeira hora nos idos de 1971. Sempre ligeiro, Aramis nasceu num dia e morreu no outro. Guri curitibano, nasceu em 12 de julho de 1943 e faleceu em 13 de julho de 1992. Há dez anos, portanto, a cidade perdia seu mais perfeito colunista, o grande anfitrião da cidade – recebia praticamente todas as personalidades ligadas a música, cinema e artes em geral que aqui chegavam. Morreu escrevendo a eclética coluna Tablóide, aqui neste O Estado do Paraná. Jornalista assim, jamais a imprensa paranaense conheceu: quem nasceu, morreu, quem chegou, fez e aconteceu, o Aramis registrava.
Na Memória de Vida de Aramis, um boletim editado pela Casa de Memória, que tanto faz falta, o escritor Jamil Snege assim o definia:
– Você é uma rua, a Visconde do Rio Branco. Você é uma sala, com milhares de discos, livros e jornais. Você é um carro estacionado na frente da casa, pronto para sair sempre atrasado. Para o jornal, para um cinema, para o teatro, para o boteco onde, o coração apertado num vestido de noite, a jovem futura revelação estréia com os olhos fixos em você – crítico e incentivador.
Quando da estréia de Jaime Lerner na Prefeitura de Curitiba, Aramis Millarch também estava lá. Além de crítico e incentivador, foi convidado para o cargo de diretor do Departamento de Relações Públicas e Promoções (DRPP). Naquela época, quando se amarrava notícia com lingüiça e papel carbono, esse tal de DRPP era um mix de Secretaria de Comunicação, Cerimonial e Fundação Cultural de Curitiba. Tudo isso levado por uma pequena orquestra de funcionários que tocavam, todos, sete instrumentos. Portanto, das obras que Jaime Lerner hoje interpreta, Millarch foi primeiro maestro. E inventor do Teatro do Paiol.
Se Aramis Millarch não estará presente na recepção ao novo presidente da UIA, na tarde desta quinta-feira, 14 horas, Jaime Lerner também não estará presente no Solar do Barão, quando, parte de um curso de Jornalismo Cultural, Aramis Millach será tema de uma mesa-redonda. Presentes, antigos companheiros de redação: Mussa José Assis, Maí Nascimento Mendonça, Cleto de Assis, Aroldo Murá e este colunista.
Até sexta-feira, Francisco e Marilena Millarch.