(De Paris) Jaime Lerner já não sabe o que é mais difícil: trazer uma fábrica de carros franceses para o Paraná ou levar um só carrinho de fabricação própria para rodar em Paris. Nos dois casos, no entanto, conseguiu seu intento. A fábrica da Renault mostrou a que veio e com o seu Dock Dock de fundo de quintal o arquiteto realizou mais um dos seus sonhos:

– Santos Dumont passou por cima da Torre Eiffel. Eu vou passar por baixo.  

Dumont era o brasileiro voador. Lerner é o arquiteto sonhador: encaixotou o carrinho de 1,70m de comprimento, 1,20m de largura traseira e 1m de largura dianteira, e veio ao Velho Mundo mostrar o seu brinquedo de gente grande. Primeiro passou por Berlim, onde fez a Porta de Brandemburgo “girar em torno do Dock Dock”, e na tarde de ontem fez a Torre Eiffel olhar com carinho e simpatia o veículo para transporte individual, mas sem o conceito de propriedade privada.

Com alimentação elétrica na “doca” (daí o dock), o compacto é movido a energia limpa e destinado a cobrir pequenas e médias distâncias dentro do território da cidade, em pontos estratégicos como terminais de transporte coletivo e endereços de serviços, cultura e comércio.

Com a concepção de Jaime Lerner e o design de Emílio Mendonça, até o ano que vem ainda veremos milhares de “jaiminhos” girando pelas vias lentas do sistema trinário de Curitiba, o que vai alcançar praticamente a cidade inteira. Bem mais em conta que os carros tradicionais (“aqueles feitos para quatro bundas mas que carregam apenas uma”) o Dock Dock  foi concebido para funcionar mediante pagamento de tarifas conforme o tempo de uso, via cartão magnético a ser comprado pelo usuário. Ou até mesmo de graça, conforme o objetivo do sistema. Após o uso, pode ser estacionado em qualquer estação do sistema.

Junto à Prefeitura de Paris (Hôtel de Ville), um dia antes de passar por baixo da Torre Eiffel com o Dock Dock, Jaime Lerner atendeu a um telefonema do Brasil:

– Onde você está, Jaime?

– Estou indo para a Torre Eiffel. Vou me jogar lá de cima!

À sua procura estava o escritório do arquiteto na rua Bom Jesus,em Curitiba, também em busca do paradeiro de um componente elétrico que, por ter queimado em Berlim, precisou ser enviado pela HDL Transportes.

Lerner não precisou se jogou da Torre Eiffel (apesar da HDL, a peça chegou aos 46 minutos do segundo tempo) e o Dock Dock fez a sua festa em Paris, rodou no alto do Trocadero, e Pierre Mansat, assessor eleito de Relações Metropolitanas do prefeito de Paris Bertrand Delanoë, passeou em torno do Hôtel de Ville feito uma criança com brinquedo novo.

No final da tarde, para comemorar, o Dock Dock foi para a frente do Les Deux Magots, lendário café de Paris onde as pessoas sentam-se para ver, seja gente, seja cachorro, sejam cenas insólitas do cotidiano. Paris sempre é uma festa, inclusive para quem veio da rua Bom Jesus!