Curitibano não tem cura

Catarinauta, hoje tenho diploma de curitibano, depois de trinta anos repetente. Assinam o título comprobatório meus dois filhos e minha mulher, Maí Nascimento, orientadora do doutorado onde defendi a tese de que a minha Curitiba é bem menor do que imaginam os neocuritibanos desavisados. Da minha janela, Curitiba limita-se com quatro bairros: Mercês, Rebouças, Batel e Juvevê. Ou seja, partindo da Boca Maldita, além de dez reais no taxímetro, Curitiba não é mais Curitiba.

Dentro deste minúsculo quadrilátero, hibernam os curitibanos de tantas lendas. “Uma gente fria, encasacada, não cumprimenta os vizinhos, não dá bom-dia de graça.” Cobra caro, feito uma telefonista que tínhamos aqui no jornal. Melátia era uma típica curitibana, vivendo à sombra da torre da Telepar, numa casa de lambrequim. Dizíamos: – Bom dia, Melátia! E ela: – Bom dia por quê!?

Fora do meu minúsculo quadrilátero, os neocuritibanos. Estes que descobriram, bem tardiamente, que curitibano é econômico no gesto, não esbanja afetação. O afeto, encerra no peito. E, alvíssaras, descobriram também o curitibano “frio e taciturno”, agora também personagem de anedotas. Quando cheguei a Curitiba, em 1970, só se faziam piadas com duas espécies: gaúchos e catarinas. Estes, especialmente, eram saudados com uma pegadinha básica:

– Sabe por que os catarinas, quando vêm morar em Curitiba, não cumprimentam mais os conterrâneos? Eles acham que na cidade grande ninguém se cumprimenta!

Talvez daí essa mística do curitibano que não cumprimenta ninguém, nem o vizinho. No máximo com um “oi”, um “olá”. Um “tudo bem?”, só se o vizinho estiver sendo algemado na porta do camburão. Elevador também é coisa de cidade grande. Na semana, o jornalista Luigi Poniwass causou polêmica, publicando um texto que tem rendido deliciosas discussões: “Poucas coisas são mais constrangedoras e desconfortáveis do que pegar um elevador em Curitiba. Pode estar apinhado de gente, que ninguém ousa cruzar os olhares – palavras então, seria um sacrilégio”.

A mesma história já se ouviu sobre parisienses, londrinos, até paulistanos. Boa parte dos últimos retratos escritos do curitibano são velhos estereótipos. Como este, contando que curitibano convida todo mundo para “passar lá em casa”, mas nunca formaliza o endereço ou marca um dia e um horário. A mesma coisa acontece quando se ouvem os famosos “me telefona” ou “vamos tomar um cafezinho”. Isto já se dizia, e ainda se diz, do carioca, desde o primeiro carnaval. Enfim, uma boa lorota, uma lorota boa. Como diria Requião, “uma bobagem!”.

Fora desta minha minimalista Curitiba, conheço pouco, só de ouvir falar. Especialmente em campanhas eleitorais, quando é muito lembrada. Do que conheço, lembro do Boqueirão, caminho do ônibus que me trouxe ao Paraná. Daí que se dizia que o Boqueirão era terra de “catarina cansado”. Outra bobagem. Mas não é bobagem uma outra velha lenda curitibana: reza a lenda que não é lenda que, pra resolver o eterno problema de saneamento daquele bairro/cidade, seria consumida a bagatela de quatro orçamentos anuais de Curitiba. Ou, habilite-se quem tiver coragem.

Este exíguo quadrilátero que vejo da minha janela ainda é a Curitiba dos anos 70, lembrando curitibanos da cepa, polacos, alemães, franceses, italianos, a casa com lambrequins da Melátia. Mais além, é a Curitiba redesenhada por uma nova legião estrangeira. Estrangeiros que já não mais fabricam carroças em Santa Felicidade. Fabricam automóveis até bem pra lá do Boqueirão. São eles paulistas, mineiros, gaúchos, baianos, paranaenses de Braganey, de Lupionópolis, de Londrina, de Pato Branco, de Maringá, um Brasil de gente arribando pra bem além do que pagam os dez reais de um taxímetro.

Os curitibanos “frios e que não cumprimentam nem vizinhos”, rareiam. São ararinhas-azuis, vistas benzendo seus carros na igreja das Mercês, na irmandade da Santa Casa de Misericórdia ou comprando broa na padaria América. O mais raro deles foi visto na livraria do Ghignone, e – acreditem – era o Dalton Trevisan.

Curitibano não tem remédio, eu gosto!

Grupos de WhatsApp da Tribuna
Receba Notícias no seu WhatsApp!
Receba as notícias do seu bairro e do seu time pelo WhatsApp.
Participe dos Grupos da Tribuna