Curitiba é o limbo (1)

A teoria de que Curitiba é um limbo é recente. Surgiu quando a revista Veja afirmou que Curitiba é um tédio. Veja errou: Curitiba é um limbo. Inferno é São Paulo. Diz esta recente utopia que os habitantes de Curitiba são criaturas que já viveram em épocas alhures e reencarnaram aqui, por ordem e desejo do Senhor Todo-Poderoso.

Em priscas eras, vivemos uma outra experiência de vida, tínhamos outra configuração e por motivos diversos, fomos reservados para um up-grade em um novo plano existencial. Pelos cânones divinos, não merecíamos ir ao céu, nem ao inferno, e merecemos nova oportunidade aos olhos Dele.

– In dubio, pro reu! Enviem essas criaturas a Curitiba! – teria dito o Todo-Poderoso. E assim, com sua misericórdia, Ele nos deu uma última e definitiva oportunidade de ganhar o Reino dos Céu. Em caráter vitalício, sem carecer recursos do capeta.

Uma teoria que desafia o senso comum exige comprovações. Einstein dizia: "Todas as teorias físicas, independente de sua expressão matemática, devem se prestar a uma descrição simples, que até uma criança possa entender". Então vamos aos fatos, que até uma criança possa entender: nosso preclaro Rafael Greca, em verdade vos digo, nasceu pela primeira vez em Roma, no ano de 321, e foi cardeal romano no pontificado de São Damásio I. Um papa erudito, autorizou o canto dos salmos e dos coros, proclamou o Segundo Concílio Ecumênico, mandou traduzir do hebreu as sagradas escrituras e introduziu nos ritos a palavra hebraica "Aleluia!", por sugestão de Rafael Greca, que então se chamava cardeal Remo Vitale Baccanelo.

Por ser o preferido do papa Damásio, e tão erudito quanto, dom Baccanelo, foi nomeado prefeito de Roma. Caiu em desgraça quando seus opositores o acusaram de manter algumas concubinas e ser genitor de vários filhos bastardos. Infâmias, as acusações nunca foram provadas. Dom Baccanelo morreu envenenado aos73 anos e foi parar injustamente nas profundezas do inferno. Só com a morte do papa Damásio I, quando este testemunhou a inocência do cardeal perante o Todo-Poderoso, é que Baccanelo foi reabilitado, em termos: na dúvida, o Sagrado Conselho Celestial enviou Remo Vitale Baccanelo para uma nova existência comprobatória em Curitiba, com o nome de Rafael Waldomiro Greca de Macedo. Ou seja, veio ao limbo.

Assim sucedeu com o governador Roberto Requião. Na primeira existência, também nasceu na Itália com o nome de Ercoli Arnoldi. Filho de jornalistas anarquistas, negou a origem e se tornou contabilista, para desgosto da família. Certa feita, conheceu numa taberna de Gênova um engenheiro agrônomo chamado Giovanni Rossi que estava embarcando para o Brasil, com a intenção de fundar um colônia anarquista em Palmeira, no Paraná. O sangue anarquista falou mais alto: Ercoli Arnoldi chutou o escritório de contabilidade e veio ao Brasil. Chegou em 18 de fevereiro de 1890, só com a roupa do corpo: terno de linho, suspensório e gravata borboleta. Assim janota, franzino e branquela, a primeira atitude de Ercoli foi jogar a roupa fora. Feito um Adão, o anarquista perdeu-se nos campos de Palmeira e viveu embrenhado em capões de pinheiros, roubando broa e pão quentinhos das janelas das casas dos imigrantes. O imberbe contabilista teve uma vida longeva. Morreu peludo – que o frio era tanto – e, de tanto roubar broa e pão quentinhos, foi parar no inferno.

Não merecia tal destino, os pecados eram de pouca monta. Tanto que o Sagrado Conselho Celestial reavaliou o caso e designou Ercoli Arnoldi para esta nova existência, renascido Roberto Requião de Mello e Silva neste limbo de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

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No próximo capítulo, conheça outras notórias reencarnações e saiba porque o publicitário Ernani Buchmann reencarnou em Curitiba, depois de uma outra existência matando passarinhos em Joinville.

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