Curitiba à mesa, no século passado

Que tal juntar um bom livro com uma boa receita?

É isto que se pode encontrar nos livros de cozinha utilizados em Curitiba na primeira metade do século XX, garimpados e testados pela historiadora curitibana Solange Menezes da Silva Demeterco.

Esta incrível experiência, com sabor de aventura, acaba remetendo à história da gastronomia. O saber é atávico, incorporado e adaptado, conforme a região e as circunstâncias, gerando sabores com personalidade, retrato vivo das pessoas e seus viveres em cada época.

Solange falou sobre o assunto no gelado final de tarde de 2 de maio, dia sanduíche do feriadão do Dia do Trabalhador -, no Mercado Municipal. Um espaço que, a partir da inauguração do painel de Poty Lazzarotto e das exposições de retratos e de poemas, vem tentando se firmar como alternativa de espaço cultural. Daí Sabor e Saber Livros de Cozinha, palestra e exposição.

Quem perdeu a palestra pode ver a exposição. Entre os livros, há raridades como O Doceiro Nacional, primo de O Cosinheiro Nacional cosinheiro com s, assim mesmo. Livros em que se ensina de tudo, desde como construir o forno para pão, ou como embebedar de véspera o peru de Natal e torcer seu pescoço até as minúcias da farofa do recheio e da sua apresentação à mesa – aí incluídas as regras de perfeita arrumação da mesa, com pratos, talheres e descansa-talheres, guardanapos e porta-guardanapos, copos, tudo medido em distâncias, formas etc.

Entre outras raridades, está na exposição uma antiga edição do livro de Dona Benta. E a curiosidade relatada por Solange em sua palestra: o livro não se chama Dona Benta, e sim Comer Bem, mesmo porque a avó de Pedrinho e Narizinho, matriarca do Sítio do Picapau Amarelo, é personagem ficcional de Monteiro Lobato. Mas o autor era ligado à Companhia Melhoramentos, pela qual editava seus livros, editora esta que decidiu acrescentar Dona Benta ao seu livro de receitas. Uma Dona Benta que, diga-se de passagem, nem era a cozinheira da família, deixava as lidas da cozinha para Tia Nastácia. Sucesso absoluto desde o seu lançamento, há várias décadas, o livro é uma unanimidade nacional, considerado o vade-mecum das donas-de-casa brasileiras.

O material exposto é da coleção pessoal de Solange, porque todos os livros e cadernos de cozinha a que teve acesso em sua pesquisa esbarraram no excesso de zelo das proprietárias: mesmo que não usem, não vendem, não dão e muito menos emprestam!

Em sua série de entrevistas com mulheres curitibanas que hoje estão acima de 70 anos e que, portanto, estavam entre as “rainhas do lar” de 1900 a 1950 -, Solange descobriu que o tal “zelo” vai mais além: receita culinária, entre mulheres, é segredo de Estado. Quem passa a receita para a amiga ou a parente insistente não conta tudo, sempre guarda para si o chamado “pulo do gato”.

A palestra de Solange no Mercado Municipal foi um breve resumo de sua tese em História. Mas prendeu a atenção dos convidados, já que é em torno da mesa de refeições que se processa, até hoje, uma rica síntese da vida.

A revelação mais apimentada de Solange, que certamente incomoda muita gente e que ela deixou de fora de sua tese se refere à repetição de receitas, em livros de todas as editoras que se dedicam ao assunto. Ou seja: não existem praticamente criações, as receitas são “compiladas” é este o termo correto e “mudam de nome”.

É tanta informação contida em simples livros de receitas que dá para imaginar a vida há 100 anos, na Curitiba bem pacata e quase despovoada, quando nossas bisavós enfrentavam uma rotina estafante para colocar à mesa, cinco vezes por dia, a comida da família. Era café da manhã, almoço, café da tarde, jantar e ceia. E o que é que se vê em todas as capas de livros de cozinha? A jovem dona-de-casa de cabelo bem penteado, aventalzinho engomado e um eterno sorriso nos lábios! Outros tempos!!!!

Até sexta-feira, com um adendo: o texto acima é de Maí Nascimento Mendonça. Pois é: de vez em quando a gente precisa tirar a mulher da cozinha para fazê-la trabalhar um pouco.

DANTE MENDONÇA

dantem@pron.com.br

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