| Troy Donahue e Ângela Vasconcelos, a nossa miss Brasil. |
Significativo desta temporada curitibana de Francis Ford Coppola é o exemplo de cordialidade e generosidade que o grande cineasta nos deixa. Num país onde qualquer noviço ator de novela despontando para a mediocridade “se acha” com direito a um exército de seguranças, onde até a figurinha carimbada de coluna social “se acha” no direito de convocar a imprensa para entrevista coletiva, convenhamos: Coppola revelou-se um “figuraço”, para usar uma palavra que usamos para elogiar um recém-conhecido no bar da esquina. Provavelmente seus filmes não encalhem nas locadoras, tanto encantou aos curitibanos próximos e aos observadores e nesta categoria me enquadro, no curioso papel de ficcionista da inesquecível visita.
Astros e estrelas, Curitiba já recebeu tantos. Mas poucos se incorporaram de tal forma ao cotidiano de seus habitantes. Francis Ford Coppola foi ao Mercado Municipal comprar ingredientes para cozinhar o almoço de domingo na casa de Jaime Lerner, interpretou o papel de um comum pedestre, circulou no ônibus Expresso, andou na contramão das celebridades. Feito um “Bala Zequinha”, vimos um inusitado álbum de figurinhas: Coppola no futebol, Coppola na feijoada, Coppola pizzaiolo, Coppola na Boca Maldita, Coppola visitando Campo Largo, Coppola palestrista na Univesidade, Coppola autografando na esquina. Coppola, mais que figurinha, um “figuraço”.
No mesmo Hotel Bourbon onde até ontem o cineasta se hospedou, numa nova e especial suíte, há muitos e muitos carnavais outros astros e estrelas também se hospedaram. Era então o Hotel Iguaçu, hospedeiro aristocrático do maior festival cinematográfico já realizado no Paraná o TribunaScope, promoção internacional da Tribuna do Paraná, que trazia na década de 60 grandes nomes do cinema, para gáudio do distinto público. Quando a Rádio Guairacá transmitia a chegada dos astros ao Aeroporto Afonso Pena, quadras em torno daquele Hotel Iguaçu eram tomadas por milhares de fãs, com a massa indo ao delírio quando o jovem galã Troy Donahue dava o ar de sua graça na janela do apartamento. Donahue fez par romântico com Suzanne Pleschette no filme Candelabro Italiano, um sucesso tão grande no Brasil que lhe valeu o convite para as comemorações do IV Centenário do Rio de Janeiro e para o TribunaScope, em 1965. Ocasião, aliás, em que a Kodak lançou a máquina fotográfica “Rio 400”. O fotogênico Donahue foi campeão de vendas da Kodak.
Além de Troy Donahue, não foram poucos os que botaram a cabeça pra fora da janela do Iguaçu, agitando as mocinhas da cidade ao largo da Biblioteca Pública. Dos tantos notáveis, Carl Malden, Anthony Perkins e Janet Leigh. Mas, ao contrário de Coppola, saíam do hotel para breves incursões: estréias e homenagens no Cine Teatro Vitória, bailes na Sociedade Thalia e acredite! registros na “Calçada da fama”, que virou pó junto com o Vitória, na Rua Barão do Rio Branco.
No quesito graça e simpatia, comparáveis a Francis Ford Coppola só mesmo as temporadas curitibanas do nosso Vinícius de Moraes. A primeira, em dezembro de 1971, foi para inaugurar o Teatro do Paiol. Os contatos foram feitos pelo jornalista Aramis Millarch, que deixou primorosa crônica sobre a negociação. Das exigências do poetinha, uma óbvia, uísque à vontade, e outra bem inusitada, para o quarto do Guaíra Palace Hotel, na Praça Ruy Barbosa: uma banheirinha cor-de-rosa. Tinha.
Até quarta-feira, Francis: nossa casa é a sua casa, nossa cidade é a sua cidade.