Em plena Segunda Guerra Mundial, meu avô Luiz Tridapalli era delegado de Nova Trento (SC). Dividia seu tempo e músculos batendo na bigorna da ferraria ao lado da Igreja de Santa Ágata, no Besenello, e apartando os efeitos do vinho em ocasiões pontuais: festa de São Vigilio ou baile na Sociedade Humaitá. No mais, a pacata colônia italiana só era tomada por algum frenesi com os sinos da matriz anunciando a morte de um parente ou o ritual da matança de porco, um saboroso acontecimento. Da matança em terras dos ancestrais, vagas e “lontane” notícias pelas ondas do Repórter Esso da Rádio Nacional.
Quando a guerra chegava mais próxima, vinha em pessoa, pelo representante do governo de Getúlio Vargas, o encarregado de auscultar na colônia se “ai de alguém ainda falando italiano!”.
Nessas incertas ocasiões, por força do cargo, meu avô era anfitrião de algum fiscal lingüístico de Florianópolis. Vinham sempre esfomeados, gulosos pelo vinho e polenta neotrentinos. Anunciados pelo telégrafo, eram tomadas duas providências: nossa nona Giusepina Tolomeotti Tridapalli cuidava de sapecar a galinha, virar a polenta, colher chicória do quintal. Ao nosso nono Luiz cabia uma missão bem mais desagradável que a bigorna: trancar “i bambini” no sótão, pois o enviado da capital desconhecia que, no interior de Santa Catarina, até os filhos do delegado falavam italiano. O mesmo acontecia em Curitiba, ou em Blumenau, de onde o ex-ministro Karlos Rischbieter deve ter histórias semelhantes para contar.
E assim restavam “i bambini”, almoçando polenta fria e lingüiça no abafado sótão, enquanto algum fiscal lingüístico estivesse sendo plenamente convencido, pelo vinho, que no interior do Brasil meridional apenas se falava a língua de Camões, Rui Barbosa e dos cantores do rádio.
Neste compasso, seguiu o baile de Getúlio Vargas, quando a perseguição aos dialetos italianos, ou outros idiomas, era rotina na colônia e a ordem política exigia um Brasil com única e mesma língua.
Lula não é nenhum Getúlio Vargas e o Zé Dirceu não é o mato-grossense Felinto Müller, mas quando o presidente do PT, José Geníno, declara guerra ao eixo Heloísa Helena-Luciana Genro-Babá, o que se percebe é que a escolinha do professor Luiz Inácio está exigindo que as lições de casa venham escritas todas na mesma língua. Com exceção para os nativos das selvas tucanas, que falam exóticos dialetos.
Agora mesmo, com a divulgação do vídeo de 1987, onde o presidente Lula faz acusações a seus atuais aliados e um outro vídeo de maio de 2002, com entrevista do candidato a presidente, desmontando vírgula por vírgula o atual idioma governamental, estamos ouvindo o palavrório de uma Torre de Babel: o Palocci, por dever de ofício, só fala inglês, num perfeito sotaque nova-iorquino. O Zé Dirceu anda puxando tanto nos erres que até lembra um posudo diplomata francês convencendo aborígenes das ilhas pefelês. O vice José Alencar, quando reclama da taxa de juros, fala javanês. Já o presidente Lula, convenhamos, está se esforçando para falar o esperanto, uma língua que se pretende universal.
Quanto aos dissonantes Babá, Heloísa Helena e Luciana Genro, no centro dessa balbúrdia, o melhor que o PT pode fazer é seguir o exemplo do nono italiano: trancar “i bambini” no sótão por um bom tempo, almoçando polenta fria e lingüiça, porque, paciência!, esses meninos são assim: sempre com a língua nos dentes, jamais vão esquecer o idioma que trouxeram do berço.
Até domingo, ministro Karlos Rischbieter!