O cronista esportivo Carneiro Neto, na rádio CBN, falou e disse o que muitos só admitem no escurinho da Travessa Júlio Alberto de Campos, a célebre “travessa do mijo”, fundos da Catedral Metropolitana de Curitiba: – Existem três paranás: o Paraná paulista, o Paraná gaúcho e o Paraná paranaense.

O Paraná paulista é norte do Paraná. O Paraná gaúcho é o Paraná do sudoeste. E o Paraná paranaense é o Paraná do primeiro planalto.

A tese do Carneiro não é nova, mas merece constar em ata. Até porque o cronista é de Ponta Grossa, a capital cívica do Paraná. Uma região neutra, o segundo planalto. Portanto, pode arbitrar o velho litígio entre os paranaenses dessas três extrações.

Um litígio que, de tão velho, até caducou nos últimos anos. O Paraná paulista, digamos, ainda continua pedindo “um chopes e dois pastel”. O Paraná gaúcho insiste tropeçando nas bombachas. Mas o Paraná aqui do primeiro planalto não é mais o mesmo Paraná paranaense, aquele do Rafael Greca e do Raphael Munhoz da Rocha, aquele tradicional Paraná do puro leitE quentE.

Se um pé-vermelho, o Domingos Pellegrini, por exemplo, subir numa marquise da Rua das Flores e rolar um discurso contra as curitibanas com mania de topete no cabelo, vai pregar num deserto de curitibanas e curitibanos. No máximo vai mexer com os brios do Candinho Gomes Chagas, bravo editor da revista Paraná em Páginas. Mesmo assim, arrisca o Candinho nem estar presente, visto que ele cansou de fustigar Jaime Lerner e agora dispara suas baterias contra os prefeitos do litoral.

Nesta Curitiba às vésperas dos seus 310 anos, curitibanos da cepa rareiam. Essas ararinhas azuis são vistas volta e meia na coluna da Juril, nos almoços de domingo na chácara do Rafael Greca, na irmandade da Santa Casa de Misericórdia ou comprando broa na padaria América. O mais raro dos curitibanos foi visto no final do ano passado, nas imediações do Teatro Guaíra, e – acreditem – era o Dalton Trevisan.

Agora será lançado um belo livro contando histórias de Curitiba, dos curitibanos e curitibanas. Mas, por Deus do céu, os autores não são curitibanos. Um é catarina de Joinville Ernani Buchmann -, outro é paulista de Itararé o cartunista Solda. Isso não prova que os curitibanos já não constam nem mesmo para contar histórias de Curitiba, pois Dalton Trevisan continua sendo o orgulho da nação e o curitibaníssimo Adherbal Fortes de Sá Júnior até anda escrevendo um livro sobre a memória musical da Curitiba dos anos 60.

O livro de Buchmann e Solda Onde me doem os ossos só prova que Curitiba é definitivamente uma cidade sem portas. Como preconizava o próprio Adherbal Fortes no Teatro do Paiol, na década de setenta, com a peça assim mesmo chamada: Cidade sem Portas.

Aquela Cidade sem Portas de Adherbal lembrava polacos, alemães, franceses, italianos. A cidade sem portas de hoje, hospedando até fábricas de automóveis, lembra paulistas, mineiros, gaúchos, baianos, paranaenses de Braganey, de Lupionópolis, de Londrina, de Pato Branco, de Maringá, um Brasil de gente arribando quase além da região metropolitana. Naturalmente, a cosmopolita Curitiba com 310 anos ainda lembra aquela legião estrangeira. Estrangeiros que já não mais fabricam carroças em Santa Felicidade. Fabricam automóveis na vizinhança da chácara de Rafael Greca.

Assim, é preciso marcar uma prosa na “travessa do mijo” com Carneiro Neto e considerar melhor a tese: de fato, existem três paranás. Mas o paraná do puro leitE quentE está em vias de extinção. O que temos hoje, aqui no primeiro planalto, é um Paraná em que até pé-vermelho fundamentalista se sente em casa.

Até quarta-feira, Rafael Greca. Com beijos nas tias.

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