Risquei do meu caderno essas férias de verão de 2004. Podemos ser amigos, simplesmente, coisas do amor, nunca mais. Traiçoeiro, este verão presente nem lembrou os do passado. Aqueles dias inúteis de sol. Mas fazer o quê, se nem os baralhos são mais como os de antigamente? As cartas, agora, vêm impressas num cartão quase transparente, marcadas para a trapaça. Também os meteorologistas não são mais como os de antigamente: infelizmente, tornaram-se infalíveis.

Apesar do brumoso verão, me resto conformado, depois do sábio e-mail que recebi do cartunista Solda.

– O Sol é um senhor de idade e sabe o que faz. Vamos respeitá-lo.

Se chorar por tantas chuvas de verão é chover no molhado, pelo menos sobrou tempo para fazer do limão limonada e caipirinha. Enquanto o vento leste soprava águas do oceano, dei por findo o rol de leitura deste verão. Abri a temporada com A ditadura derrotada do Elio Gaspari; me abracei com Gabriel García Márquez em Viver para contar; descobri Naguib Mahfuz, com O Beco do Pilão, primeiro árabe a receber o Prêmio Nobel de Literatura,1988; passei por Meu país inventado, de Isabel Allende; dei um chega pra lá na mais recente e tosca obra de Marcelo Rubens Paiva, Malu de bicicleta, atravessei Minha Antônia, da americana Willa Cather, reli algumas crônicas de Rubem Braga, 200 crônicas escolhidas; reli também Ernest Hemingway, Adeus às armas e O sol também se levanta; finalizando, atravessei oceanos com Pablo Neruda, Pelas praias do mundo.

Chuvas de verão, leituras de verão. Portanto, não estou aqui me credenciando a intelectual. Não fosse essa intermitente lestada, teria passado as férias com o velho calção de banho, caniço e samburá.

Com a lunar paisagem de praia, e como já não se fazem mais baralhos como antigamente, dedicamos bom tempo à cozinha, debulhando O que Einstein disse a seu cozinheiro (A ciência na cozinha), de Rober L. Wolke. Professor de química na Universidade de Pittsburgh e titular da coluna “Food 101” do jornal Washington Post, o livro de Wolke é como se fosse o milagre de trazer Einstein até a nossa cozinha para nos esclarecer, através da ciência, os bastidores da mesa, descartando informações e mitos que passaram do prazo de validade, ajudando a interpretar rótulos e propagandas. Para perguntas comuns, fáceis respostas à luz da ciência: Por que o chocolate derrete na boca? Por que a carne vermelha é vermelha? O que faz a carne moída ficar marrom? Por que a manteiga européia tem um sabor tão bom?

Pergunta: A comida está muito salgada. Ouvi dizer que batata crua absorveria o excesso. Haveria alguma coisa que eu pudesse fazer a esse respeito?

Resposta: Quase todo mundo ouviu esse conselho: jogue alguns pedaços de batata crua, deixe cozinhando um pouco em fogo baixo e elas absorverão parte do sal em excesso. Mas, como tantas crenças populares, essa, que eu saiba, nunca foi testada cientificamente. (…) No teste, não houve diferenças perceptíveis nas concentrações de sal antes e depois de terem sido fervidas com batatas. Ou seja, o truque da batata não funciona.

Você já fritou ovos no asfalto? Será que o calor pode chegar a fritar um ovo na calçada ou no asfalto? “Einstein disse ao seu cozinheiro”, nas palavras de Robert L. Wolke: “É pouco provável. Mas a opinião científica não deve desencorajar as pessoas de tentarem pôr à prova uma antiga lenda urbana”. A experiência foi feita e também está no livro.

O verão não estava para fritar ovos no asfalto. Assim, testei uma receita do nosso Luiz Augusto Xavier. Uma “jambalaya” de siri, indicada por Anacreon de Téos no suplemento Nossa Praia. Pois bem, Luiz Augusto Xavier, sinto dizer: passei do ponto na pimenta e… no sal! Nem mesmo a lenda da batata consertou.

Até sexta-feira, na página de Nossa Praia.

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