Chega de intermediários!

Até os postes sabem que na campanha eleitoral o candidato é um mero detalhe; essencial é o colégio de marqueteiros. Onipresentes, só os postes conhecem as almas das ruas, sabem o que se murmura nas esquinas. Do alto, eles observam quem entra e quem sai, quem vai e quem volta, quem sobe e quem cai, quem conspira, quem trai, quem de fato importa e quem se proclama importante. Unidos por tantos fios, postes tudo ouvem, tudo vêem, tudo sabem. A voz das urnas é a voz de Deus e a voz rouca de um poste é a voz de um sábio. Portanto, voltamos a conversar com o poste em frente ao Bar dos Passarinhos. Ele nos concedeu mais uma iluminada entrevista, enquanto sustentava energia elétrica para a Igreja dos Passarinhos, no Bigorrilho, bairro que os eleitores de Beto Richa denominam Champagnat, para efeito de pose e cartão de visita.

PERGUNTA – É muita falta de imaginação, mas não podemos deixar de repetir a pergunta de praxe nas suas entrevistas: o senhor tem visto a dona Nice Braga?

POSTE – De fato, é muita falta de imaginação, mas é sempre um prazer a velha resposta: como de costume, antes e depois das missas do padre Gabriel Figura, tenho iluminado os passos de dona Nice Braga, esta simpática e elegante senhora. Ela e o Nelson Comel, meus fregueses de luz, desde os tempos do saudoso padre João.

P – Quem ganhou a eleição?

POSTE – Uma profunda indagação. Até os postes sabem que o eleito foi Beto Richa, mas quem ganhou foi o marquetching.

P – Por conseguinte, o Vanhoni não perdeu e o marquetching foi o grande derrotado?

POSTE – Qualquer poste conhece as causa da debacle. Até petistas de alto coturno admitiram “perda total”, para usar o jargão das seguradoras.

P – Se ocorreu “perda total”, qual foi a causa do sinistro?

POSTE – Desgoverno. O partido entrou na reta de saída atropelando e foi se desgovernando no percurso. Não foi por falta de habilidade do piloto. Foi a soberba dos marqueteiros que estavam no box. Botaram pneus slick, pra seco, quando deviam usar pneus tipo biscoito, próprios para chuva. E não deu outra: choveu na reta final.

P – Contando com a vitória do Micheleti em Londrina, no Paraná não foi “perda total”.

POSTE – Mas isso até nós postes reconhecemos que não foi o Belinati que perdeu, foi o povo de Londrina que ganhou.

P – Cila Schulmann, condutora do marquetching do candidato Beto Richa, declarou à imprensa que “Curitiba não quer mudanças”. Os postes concordam com a polêmica afirmação?

POSTE – Perfeitamente. Os números finais da apuração não mentem: 494.440 curitibanos, 54,78%, não querem mudanças. E 408.163 curitibanos, 45,22%, não querem que a Cila Schulmann se mude de São Paulo para Curitiba. Em suma, Curitiba não quer mudanças.

P- Seguidas eleições contribuem para o aperfeiçoamento da democracia?

POSTE – As eleições estão obsoletas. Como se viu, é desperdício de lazer. O eleitor podia estar na praia, curtindo o feriadão, sua presença no domicílio eleitoral não faz mais diferença. A escolha do novo prefeito devia ser incumbida aos marqueteiros, sem intermediários. O marquetching decide o que o povo quer, o que o povo precisa, e o que o povo merece. O candidato é aquele mero detalhe que verbaliza os anseios do cidadão. Numa reforma eleitoral, basta criar um colégio eleitoral de marqueteiros para o povo se tornar perfeitamente dispensável.

P – Analistas políticos observam o resultado das urnas com a perspectiva das próximas eleições.

POSTE – O futuro ao subterrâneo pertence. Homens e postes, hoje estamos verticais, amanhã horizontais; quando todos os condutores se estenderão abaixo da superfície. Eu levo a luz; não levo à luz, e enxergo a possibilidade de um poste vir a se tornar presidente da República, por obra e graça de um marqueteiro afeito às rinhas da política.

Até sexta-feira, no horário de sempre, que nesta coluna o horário sempre é de verão.

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