Todo curitibano tem o sagrado direito de discordar da tese de que a capital dos paranaenses seja uma cidade de primeiro mundo. E também tem o direito de concordar. Assim é, se lhe parece. O que todos devem concordar, e assim nos parece, é que Curitiba tem um serviço de radiotáxi imbatível. Se também é de primeiro mundo, por que não? Não conheço os lendários táxis de Nova York, a não ser os de cinema. Nossos táxis ainda não fizeram fama na telona, mas as histórias do serviço de radiotáxi curitibano são coisas de cinema.
Conto duas histórias, de fazer corar o ministro Berzoini. Ambas, protagonizadas por duas senhoras quase nonagenárias. Mas, para efeito de contar causos, vou incorporar as duas em uma.
Digamos que ela seja Helena, 83 anos, residente numa velha mansão no Alto da Glória. Dona Helena mora sozinha e não precisa da presença de filhos, netos e bisnetos para viver bem. Basta-lhe uma assistente e um velho piano Essenfelder, fabricado a poucas quadras de sua casa.
No dia-a-dia, a faina de dona Helena é interpretar ao piano os grandes mestres e lidar com partituras. Das que faltam, pede para seu fiel provedor de partituras: o motorista de táxi.
– Radiotáxi, boa tarde!
– Aqui é a dona Helena. Por favor, pode pedir para o seu Antônio passar na F. Sartori e me trazer a partitura de Rhapsody in Blue, de George Gershwin?
– Pois não, dona Helena. Ele já leva.
Hoje, seu Antônio dirige o táxi mais cult da cidade. Nele se ouve, além de Gershwin, Liszt, Jobim, Pixinguinha, até obras dos irmãos Morozowski. E dona Helena vive dando dicas de novos CDs para o seu Antônio.
Num sábado, a filha mais velha de dona Helena telefona, preocupada:
– Mamãe, por que a senhora não vende essa casa enorme e compra um apartamento no Champagnat?
– Champagnat, vírgula, minha filha. É Bigorrilho!
– Tá bom, Bigorrilho! É um belo bairro e a senhora não vai ficar assim tão distante da Helena Kolody…
– Não insista! Daqui não saio, daqui ninguém me leva pra longe dos meus sabiás no pé de pêra.
– Mas, mamãe… a cidade está cada vez mais violenta. Todos os dias saem notícias contando assaltos horripilantes em residências. A senhora bem sabe que não adianta contar com o 190. Eles são umas tartarugas!
– Meu bem, peça a sua pizza que a minha comida japonesa acaba de chegar pelo radiotáxi. Um beijo nas crianças, tchau!
A filha de dona Helena tinha e não tinha razão. Dona Helena estava ao piano justamente interpretando Rhapsody in Blue, quando sentiu algumas notas dissonantes numa janela dos fundos. Pé ante pé, subiu a escadaria e foi ver o que se passava pela janela de seu quarto, no segundo andar. Eram três meliantes tentando arrombar a janela da cozinha. As antigas casas vizinhas, agora todas com endereço comercial, fizeram lembrar das palavras da filha:
– A senhora bem sabe, não adianta contar com o 190! Eles são umas tartarugas!
Se o 190 não funciona – pensou dona Helena – talvez outro número funcione… E ligou para o radiotáxi de sempre:
– Meus queridos, estou aqui num apuro danado. Três indivíduos estão tentando entrar na minha casa pela janela da cozinha. Por favor, mandem um táxi urgente pra me socorrer.
Não deu nem dois minutinhos e não apareceu apenas um táxi para tirar dona Helena daquele apuro. Da noite surgiram dezenas de táxis. E na noite embrenharam-se os três meliantes.
Até quarta e por aqui eu fico, com essas duas histórias reais. Se duvidar, chama um táxi.