O circo não pode parar, nem mesmo perante a morte. Nos Estados Unidos surgiram recentemente várias empresas especializadas na produção de festas para velórios. A animada família enlutada procura a funerária da alegria e passa o perfil do falecido. Se o sujeito cultivava o prazer de reunir os amigos para comer bem e degustar vinhos de boa cepa, muito fácil. Os produtores providenciam um amplo salão de festas com cozinha anexa, contratam cozinheiros, encomendam uma bem provida lista de vinhos e está feito o féretro festivo. Com o corpo estendido na mesa principal.

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Almas sensíveis se sentem chocadas com a novidade mercadológica que muito tem prosperado no hemisfério norte, tantos são os foliões dispostos a não perder nenhuma chance de comemorar a vida, mesmo depois da morte.

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Nas cerimônias fúnebres das colônias imigrantes, um dia de velório é pouco, dois é bom, três é melhor ainda. Em muitas comunidades mais retiradas, as condolências duram três dias. Seja velório de alemão, espanhol, árabe, japonês ou italiano. Principalmente nos passamentos eslavos, três dias é o tempo justo para reunir um polaco de cada colônia. Quando parentes e amigos mais distantes estão chegando, os mais vizinhos já estão se despedindo. E a festa, digamos, a ?chorradéirra? continua – com muito bolo de fubá e café com leite, canja de galinha na madrugada, maionese e frango assado com farofa durante o dia. Cerveja não pode faltar, bem a mais da conta.

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Já aconteceu velório onde foi chamado às pressas um marceneiro para remendar o caixão, minutos antes da caleça fúnebre partir rumo ao cemitério no alto do morro. Um dos parentes passou na cozinha para abrir a garrafa de cerveja, e nada de achar o abridor. Foi então à sala de visitas, onde estava o venerado, firmou a tampa da garrafa na borda do caixão e -PLAFTT!!! – abriu a garrafa. A tampa de metal tirou uma lasca de mais de um palmo na madeira. Até a viúva escondeu uma risada com as mãos.

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?Quando eu morrer? – canta o compositor popular – ?não quero choro nem vela?.

No Brasil, já se adotou o hábito de puxar aplausos para defuntos famosos, quando o caixão é alçado à tumba. O que em muitos casos soa bem falso, principalmente na presença das câmeras de televisão.

De vaias e apupos com o corpo presente, ainda não se tem notícia. Deve ser pelo caráter cordial do brasileiro. Mesmo sendo um juramentado canalha, o defunto tem direito a um minuto de silêncio no campo de futebol.

De uma forma ou de outra, a cerimônia do adeus é um momento de contrição, quando o respeitoso silêncio reverencia os méritos daquele que parte. Uma reverência que jamais pode ser dedicada à máfia de políticos sanguesssugas que se locupletaram de doentes e desvalidos à beira da morte.

Vamos guardar os nomes, anotar os endereços. A essa corja nossa brava gente deve dedicar, nas eleições de outubro, as cerimônias de adeus. Um carnaval profano na partida para o inferno, vinho e cerveja, ruidosas manifestações de júbilo nos proclamas de falecimento político. Foguetório, com o povo atrás do trio elétrico cantando com Caetano Veloso:

Harpia, aranha/ sabedoria de rapina e de enredar, de enredar / Perua, piranha / Minha energia é que mantém você suspensa no ar / Pra rua!, se manda / Sai do meu sangue, sanguessuga, que só sabe sugar / Pirata, malandra / me deixa gozar, me deixa gozar (Não enche, de Caetano Veloso).