Caro Jaime Lerner,…

…vai daqui o nosso abraço e lamentamos os torresminhos, colesterol in natura – como você mesmo diz, doravante expurgados dos aperitivos de sábado. O aviso é de sua filha Ilana, e nós todos somos obrigados a concordar, em parte: ?Agora só liberaremos o paciente para um bufê de saladas com os amigos, se é que acharemos algum para o programa?.

Não vai ser fácil reunir tantos amigos num bufê de saladas, muito menos em algum restaurante vegetariano, porque restaurante vegetariano é até tragável, intragável é o papo que permeia as saladas. Discordo em parte de Ilana, porque com certeza você vai achar parceiros de salada, com a ressalva dos restaurantes vegetarianos. Eu mesmo me disponho a acompanhá-lo num regiminho, desde que não ortodoxo. Daqueles, mais ortodoxos do que caixa de embalagem de maisena.

No final de fevereiro, caro Jaime, voltei de férias bem rechonchudo, resultado de trinta dias de lascívia na orla, com a agravante de que, soube agora, nas ostras, bem mais que nos torresminhos, encontramos colesterol in natura. Para perder cinco quilos, passei 13 dias feito frade de clausura. Primeiro dia – Café da manhã: café sem açúcar / Almoço: 2 ovos cozidos; espinafre cozido ou em salada à vontade / Jantar: 1 bife grande grelhado; salada de alface com pepino à vontade. Segundo dia – Café da manhã: café sem açúcar e 1 biscoito / Almoço: um bife grande frito; salada verde e fruta à vontade / Jantar: presunto à vontade. Terceiro dia – Café da manhã: café sem açúcar e 1 biscoito / Almoço: 2 ovos cozidos; salada de vagem e tomate à vontade / Jantar: presunto e salada (crua) de cenoura, chuchu e repolho à vontade. Quarto dia – Café da manhã: café sem açúcar e 1 biscoito / Almoço: 1 ovo cozido; cenoura crua ou cozida à vontade; queijo de Minas / Jantar: salada de fruta à vontade; um iogurte natural. Quinto dia – Café da manhã: café sem açúcar e 1 biscoito / Almoço: filé de peixe e tomate à vontade / Jantar: 1 bife; salada verde à vontade. Sexto dia /Café da manhã: café sem açúcar e 1 biscoito / Almoço: frango grelhado à vontade / Jantar: 2 ovos; cenoura à vontade. Sétimo dia – Café da manhã: chá com limão / Almoço: 1 bife grelhado; fruta à vontade / Jantar: o que quiser.

Cumpridos rigorosamente esses 7 dias, começar tudo de novo, fechando 13 dias. Com um detalhe tenebroso: 13 dias sem uma gota de álcool e perdi cinco quilos.

Last but not least, deixo aqui um texto do cartunista Jaguar, que ensina como fazer do limão uma limonada.

Obrigado, asma – O governo está fazendo uma campanha contra a asma. Tudo bem, é um flagelo, mata gente, mas, acreditem, a asma foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Vou explicar: quando eu tinha 13 anos, enquanto meus colegas de colégio jogavam bola e andavam de bicicleta eu ficava de cama, sem poder respirar direito.

Tenho péssima memória, mas acabei decorando a bula do remédio pra asma, o Dispnè-Inhal: ?Ficar sentado ou de pé, nunca deitado. Aspirar profundamente, fazendo ao mesmo tempo várias pressões fortes sobre a pêra?. Foi das poucas coisas que consegui decorar, além dos afluentes da margem esquerda do Amazonas: Javari, Jutaí, Juruá, Tefé, Purus, Madeira, Tapajós, Xingu.

Tenho ilustres colegas de doença. Para começar, Proust. Mais Che Guevara, e grandes amigos meus, o cineasta David Neves, João Saldanha e Miele. Meus pais, todos os anos, passavam as férias em Buenos Aires; eu pedia para comprarem os livros que o Jornal de Letras, dos irmãos Condé, comentava. As livrarias de lá tinham de tudo, Rimbaud, Baudelaire, Mallarmè, Poe, Eliot, Walt Whitman. Em suma, por conta da asma, li pra cacete, fazer o quê? Claro que preferiria jogar bola. Nos bondes de antanho o reclame de autoria de Emílio de Menezes, num frila, outra coisa que decorei: ?Veja. Ilustre passageiro/ o belo tipo faceiro/ que o senhor tem ao seu lado/ e no entanto acredite/ quase morreu de bronquite/ salvou-o o Rum Creosotado?.

Fui salvo pela bronquite asmática. Graças a ela, não consegui fumar, por mais que tentasse. Queria imitar meu ídolo, Humphrey Bogart, para fazer charme com as garotas. Cada tragada me deixava quase asfixiado. Apanhei menos garotas, mas não morri sufocado, e, aos 73 anos, bebendo do jeito que bebo, não estaria vivo se fumasse. Aproveito para contar essa história, de louvor à asma, enquanto o governo, no embalo daquela cartilha, não baixa uma MP e me enquadra por ser politicamente incorreto. (Jaguar)

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