Doze charges publicadas por um jornal dinamarquês provocaram a ira do povo islâmico. Os chargistas satirizaram o profeta Maomé e agora o Islã ameaça passar os engraçadinhos no fio da espada. No Brasil, uma charge do cartunista Otávio, em 1963, também detonou uma onda de intolerância sem precedentes, culminando com uma ditadura noite adentro. Te cuida, Solda!
Para o islamismo, é proibida a representação de Alá e seus profetas em imagens. E o que infiéis do mundo ocidental têm a ver como isso? Nada, responderam vários jornais europeus. O cotidiano francês France Soir, especialmente, argumentou que um país secular como a França não deve se submeter aos preceitos de nenhuma religião e mandou ver: publicou em uma das suas edições da semana as doze charges, com uma manchete de primeira página: ?Sim, temos o direito de caricaturar Deus?. Logo abaixo, uma charge na qual aparecem Buda e os deuses cristão e judeu ao lado de Maomé. Todos sentados em uma nuvem que paira sobre a Terra. O Deus cristão diz ao profeta muçulmano: ?Não reclame, Maomé. Todos nós já fomos caricaturados?.
A pressão islâmica contra o France Soir foi tão violenta que o dono, nascido no Egito, mandou demitir o editor responsável.
Te cuida, Solda: o bode que está dando, vou te contar. Milhares de palestinos ainda protestam e, como se Alá fosse padroeiro da Dinamarca, autoridades do mundo árabe pediram que o governo dinamarquês punisse o jornal atrevido que ousou desenhar Alá com o nariz do Osama bin Laden. A Dinamarca apenas lembrou aos radicais o que eles desconhecem: nas democracias os governos não têm poderes para limitar a atuação de órgãos de imprensa livres.
Salman Rushdie, escritor condenado à morte em 1989 pelos líderes do Irã por causa de seu livro Versos Satânicos, tinha sua cabeça avaliada em milhares e milhares de dólares. Te cuida, Solda: cartunista não vale nada. Se por inspiração do satã você inventar de desenhar a caricatura de Maomé, vade retro!, cortam o teu pescoço em troca de um prato de quibe.
***
A intolerância não é um privilégio de radicais islâmicos. Em 1963, o jornal Última Hora, de São Paulo, publicou uma charge que, de certa forma, foi uma das sementes da revolução que viria no ano seguinte.
Foi num fim de semana nervoso. Naquele domingo, o Santos de Pelé iria decidir o campeonato paulista. A esquadra de Pelé, Pepe, Gilmar, Coutinho e Mengálvio era imbatível. Mesmo assim, dias antes foram os craques rezar pela vitória no Santuário de Nossa Senhora Aparecida.
Na edição dominical, a principal manchete foi a fé santista estampada na capa. Para ilustrar a matéria, o editor Álvaro Paes Leme encomendou uma ilustração ao chargista Otávio, de saudosa memória, que desenhou os jogadores ajoelhados, rezando a Nossa Senhora Aparecida. Seria até uma charge edificante, não fosse um detalhe: Otávio carregou o traço nos lábios, deixando a virgem com um beiço de negra. Uma santa beiçuda, mas o desenho não resultou desrespeitoso. Mesmo porque, a imagem de Nossa Senhora de Aparecida é negra, com o paradoxo de possuir feições e traços de um branco.
Quando a edição dominical da Última Hora chegou às bancas do interior paulista, já na noite de sábado os vigários e devotos radicais passaram a telefonar insultos aos editores, que imediatamente trocaram a ilustração na edição da capital.
Poucos foram os que viram a charge de Otávio da primeira edição. Entretanto, foi o que bastou para correr o boato de que jornal comunista que apoiava Jango Goulart teria estampado uma Nossa Senhora Aparecida com os pés de bode, as mãos do capeta e as feições de uma negra devassa.
O jornal quase foi destruído, carros de reportagem foram incendiados e as senhoras marchadeiras saíram às ruas de São Paulo pedindo o pescoço dos ímpios de Jango Goulart.
Te cuida, Solda.