O mapa geopolítico do Paraná não é o que nos apresentam na escola. É o que nos parece. Somos um estado 3 em 1. O Paraná do Oeste, o Paraná do Norte, o Paraná do Sul.
Este redesenho do mapa é um racha cultural que veio a propósito do Paraná Clube que, a troco de 600 mil reais, negociou mandar seus jogos do campeonato brasileiro em Maringá, no Paraná do Norte. Três partidas já foram realizadas. O Tricolor da Vila Capanema perdeu para o Corinthians, 3×2, empatou com o Santos, 1×1, no domingo passado levou uma goleada do São Paulo, 4×0, e o próximo jogo, ainda em Maringá, será contra o Palmeiras. Os resultados são francamente desfavoráveis aos paranistas e ao paranismo.
Transmitidas em rede nacional, as imagens da torcida mostram que somos de fato um Brasil diferente: dez por cento vestindo as nossas cores, o resto e mais um pouco empunhando as bandeiras dos forasteiros. Para um pasmo observador desavisado, que estranho povo é esse que entrega o ouro aos bandidos e comemora o gol dos adversários? A pergunta nos remete para a resposta de abertura: somos um estado 3 em 1. O Paraná do Oeste torce para os times do Rio Grande do Sul, o Paraná do Norte torce para os times paulistas e o Paraná do Sul é o que nos resta: Coritiba F.C., Clube Atlético Paranaense, Paraná Clube, pela ordem da história.
As imagens do paradoxo, dos torcedores do Paraná do Sul sendo apupados pelos simpatizantes de legiões estrangeiras do Paraná do Norte, saíram da tela da tevê e tomaram conta das discussões na internet, seções de leitores dos jornais e das mesas de boteco. O redesenho geopolítico rendeu ao Paraná Clube 150 mil reais por partida e muita polêmica.
De um lado, um time acusa a falta de identidade paranaense, outra facção lembrava que já foi pior. E ambos os lados têm razão. A história política do Paraná do Sul tem mais de três séculos. A colonização do Paraná do Norte e do Oeste alcança pouco mais de cinqüenta anos. Tomando Maringá como exemplo, a cidade foi fundada em 10 de maio de 1947, quando os desbravadores só tinham notícias do Brasil e do mundo pelas ondas das rádios Bandeirantes e Tupi, de São Paulo, Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, e Rádio Guaíba, de Porto Alegre. As transmissões ao vivo, em rede nacional, só foram ao ar no Brasil em 1970 e a influência dos meios de comunicação fez com que todos os grandes estádios do Paraná do Norte e Paraná do Oeste fossem inaugurados pelos grandes clubes de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Não importa o rincão, todo cidadão tem o direito de ser campeão, com o coração palpitando no radinho de pilha.
E assim nasceram os paranaenses de além Ponta Grossa: a oeste e sudeste, gremistas e colorados. Ao norte, corintianos, santistas, são paulinos e palmeirenses, justamente os torcedores pagantes que agora engordam o cofrinho do Paraná Clube.
Em favor dos conterrâneos à jusante do Rio Tibagi, diga-se: torcedor quer bola na rede, faixa no peito e a camisa do time do coração se ganha no berço. Douglas Fernandes, jornalista e editor desta Redação, nasceu em Castelo Branco, a vinte quilômetros de Maringá e há 15 anos mora em Curitiba. A família de Douglas é paulista da região de Ourinhos. O pai é são- paulino, um irmão é corintiano, Douglas é santista e o filho, nascido em Curitiba, é atleticano. A família Fernandes é a síntese do torcedor paranaense: ?O meu pai era paulista / Meu avô, pernambucano / O meu bisavô, mineiro / Meu tataravô, baiano / Meu maestro soberano / Foi Antônio Brasileiro?, diz a composição de Chico Buarque de Holanda.
Ninguém incentiva um londrinense a torcer pelo São Paulo na arquibancada do Paraná Clube. Mas o torcedor da nascente do Rio Iguaçu precisa respeitar a camisa e as cores de quem nasceu à beira das cataratas ou ao largo das Sete Quedas. Porque a bandeira do time do peito não é a bandeira hasteada diariamente na ponta do mastro em frente ao Palácio Iguaçu e a identidade paranaense não está na ponta de uma chuteira.