(De Buenos Aires) – Assim foi e assim será: quando os ditadores tomam o poder, o primeiro ato de prepotencia é acabar com o baile, expulsar a orquestra e prender o maestro.

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Em 1976, o Decreto Lei 21.329 da ditadura militar havia terminado com os feriados nacionais de Carnaval na Argentina. Evoé, democracia: depois de 29 anos, segunda e terca-feira de Carnaval foram declarados, por lei, ?dias non laborables? e os brasileiros caíram na folia do baixo câmbio portenho.

Chango Faria Gómes, legislador portenho, é o autor da Lei 1.322 (um belo milhar) que restaurou o feriado de Carnaval na Argentina – ?al lunes y martes? – pelo menos para os funcionários públicos, que o resto não escapou de trabalhar.

Em abril de 2004 Chango Gómes redigiu a lei agora em vigor, recordando um discurso de Juan Bautista Alberdi, escrito em 1838: ?Ningún obstáculo encuentro para no librarse con franqueza al juego de carnaval. Por mi parte, non puedo menos que aconsejar a la personas racionales y de buen gusto, que corran, salten, griten, mojen, silben, chil-len, cencerren a su gusto a todo el mundo, ya que por fortuna lo permite la opinión y las costumbres que son las leyes de las leyes…?.

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Nestes dois últimos dias, estavam previstos ?corsos y murgas? carnavalescos em 10 bairros de Buenos Aires, para confirmar até que ponto a ditadura militar extirpou da memória portenha a velha tradicão do Carnaval, que nunca foi privilégio carioca – diga-se.

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Pelo que vimos e ouvimos nas elegantes passarelas de Buenos Aires, nestes ?lunes y martes? , os únicos carnavalescos que botaram seus blocos na rua foram os turistas brasileiros, mostrando a ginga e o valor do real na Calle Florida, Boca, Palermo, San Telmo, Recoleta e Porto Madero.

Carnaval de consumo, por supuesto, porque na Argentina a carne é fraca, o vinho é bom e barato e o peso é uma cabrocha generosa, disposta a nos levar ao prazer a qualquer custo.

O que nos custa caro nâo é ouvir comparações incomparáveis entre Pelé e Maradona. Os últimos números da economia é que nos atingem o ego e nos tiram o sono num hotel próximo a Corrientes, 348.

– Em 2005 el produto interno bruto brasileño cresció solo 2,3% contra 9% de Argentina, e tiene el segundo peor desempeño de América latina, apenas detrás de Haiti? Que rico!

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Quantos habitantes tem o Brasil?, perguntou um garcom na Recoleta. ?Cento e oitenta mijones, respondeu uma polaquinha curitibana com o seu simpático sotaque ?leitEquentnhol? . O portenho abriu ainda mais o sorriso: ?Muy bien!!! Entonces, 100 mijones estan a cá!?.

Destes ?100 mijones, metade devem ser curitibanos. Reunidos no estádio do Boca, bem daria para disputar um Atletiba dos mais animados. A escalação dos times poderia já ter sito feita nos aviões que haviam partido lotados do Aeroporto Afonso Pena.

De Curitiba a Buenos Aires, sem escalas, são apenas duas horas. Um ?caminito?, digamos.

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Que os amigos de Porto Alegre não sintam ciúmes. Buenos Aires e Curitiba nasceram uma para a outra. Quando caminhamos pelas margens de Porto Madero, o Rio da Prata revela que as duas cidades são consangüíneas: da nascente do Rio Iguacu, jorrando em Foz do Iguaçu, aquelas águas que fluem barrentas tem o DNA do Paraná.

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Os curitibanos têm por Buenos Aires uma paixão antiga. Neste próximo domingo os amigos do publicitário Sergio Mercer vão reverenciar sua memória com festa no Memorial de Curitiba, às 11 horas da manhã. Sergio Mercer era freguês de caderno de Buenos Aires, desde o início dos anos 70s, quando daqui levou para as noites do Bar Bebedouro, no Largo da Ordem, um ?bandoneón imaginário?. Sergio Mercer, com sua verve e sedução, foi quem primeiro vislumbrou o futuro de Curitiba espelhado no Rio da Prata.

Buenos Aires, modéstia a parte e guardadas as devidas diferenças, é um ?caminito?.