Cazuza pediu, foi atendido. Demorou, mas antes tarde do que nunca. Os nobres deputados rasgaram a fantasia, mostraram a cara e ungiram Severino Cavalcanti ao posto de "capo dei tutti capi".

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Grande Severino, filho de João Alfredo, cidade vizinha a Limoeiro, acima de Caruaru, a 110 quilômetros do Recife, capital de Pernambuco, terra de cabra macho, ô xente! Nasceu de gente com vida severina, que gosta de batizar filho com nome esquisito. Se Severino assim se chama, podia também atender pelo nome de Perseverino: três vezes que foi candidato a presidente da Câmara Federal, ainda pode vir a ser presidente da República interino, que o avião de Luiz Inácio não pode parar e o vice Alencar quer governar as Minas Gerais.

Na noite de São Bartolomeu, quando o baixo clero passou no fio da espada o exército dos peteus, esse era o grito de guerra: "Se o Lula pode, Severino também pode". E por que não?

Luiz Inácio, de Garanhuns, veio do sertão pernambucano para ser presidente da nação, em nome dos trabalhadores do Brasil. Severino, de João Alfredo, também veio de Pernambuco para ser presidente dos deputados, em nome do baixo clero.

(Pausa musical para o novo sucesso das paradas, de autoria do cartunista Gláucio: "Mamãe eu clero / mamãe eu clero / Mamãe eu clero mamaaar!")

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Luiz Inácio, de Garanhuns, é de fala estropiada, avesso à gramática, maltrata a língua, engole os esses, discorda da concordância. Torneiro-mecânico, em São Paulo se formou líder de esquerda. Severino, de João Alfredo, também estropia a língua e, assim como Luiz Inácio, teve vida severina. De pai alfaiate, foi agricultor, migrou para São Paulo de onde voltou rico, foi prefeito, deputado estadual e agora líder do baixo clero.

Luiz Inácio, de Garanhuns, e Severino, de João Alfredo, tudo a ver: é o Brasil mostrando a sua cara. Luiz Inácio, presidente do Brasil, importou avião novo, mandou comprar lençóis e roupões de linho egípcio e foi dormir com os antigos inimigos da banca internacional; sem abrir mão do desbotado discurso sindicalista.

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Severino, terceiro da nação, vai ganhar mansão de muitos quartos, piscina, mordomos e mordomias; sem abrir do surrado discurso de líder do baixo clero militante. Eis a cara de Severino: de perfil conservador e católico fervoroso, ocupou por 8 anos cargos na mesa diretora da Câmara. É publicamente contra propostas como a união civil entre pessoas do mesmo sexo; liberalização do aborto; pesquisas com célula-tronco e reforma política. Na Câmara, ele justamente ganhou o apelido de "presidente do sindicato dos deputados": prometeu elevar os salários dos companheiros parlamentares para R$ 21.700,00. Deputado estadual, pregava o afastamento de dom Hélder, a quem chamava de "Bispo Vermelho", e pediu a expulsão do padre italiano Vito Miracapillo, o sacerdote italiano que vivia no Brasil desde 1975 e que foi expulso do País porque, em setembro de 1980, recusou-se a celebrar uma missa comemorativa pela Independência do Brasil, em Ribeirão (PE). Severino sempre foi testemunha ocular da história: passou pela Arena e PDS, partidos que davam sustentação ao regime militar nos anos 70s e 80s, e estava em Nova York no fatídico 11 de setembro de 2001, quando ficou desaparecido por dois dias. Hospedado num hotel próximo ao World Trade Center, Severino, que não fala inglês, só conseguiu perceber a gravidade da situação quando agentes do FBI invadiram o hotel para fazer uma varredura. Sem poder deixar o quarto, com o sistema de telefonia interrompido e poucas informações, Severino, que estava acompanhado de sua mulher, Amélia, chegou a pensar que morreria queimado, quando viu a fumaça que saía do World Trade Center tomar conta das ruas.

Severino, de João Alfredo, sempre premiado com viagens em missões oficiais, já foi longe: conheceu Nova York, Europa, França e Bahia. E vai mais longe ainda: depois de propor mais dois anos de mandato para o presidente Dutra… digo, Luiz Inácio, de Garanhuns – quem diria? -, vai conhecer também a Granja do Torto, com direito a churrasco, pinga mineira e cantoria.

Até domingo; que este é o Brasil mostrando a cara.