Box internacional

Se um argentino incomoda muita gente – Néstor Kirchner, por exemplo -, dois, três, quatro, um bando de argentinos incomodam muito mais. Pois fique você prevenido, antes de enfiar o chinelo velho na mala e descer a serra rumo ao litoral, que los hermanos tomaram conta da nossa praia.

Enquanto serra acima se discute o fechamento dos bares após 11 da noite, imputando na birita as causas da violência, na orla atlântica o fulcro da discórdia não é o álcool. É o ego. Ego você sabe: é um bicho de estimação que todo argentino carrega dentro de si, como se fosse um pit-bull com focinheira.

Sim, da Argentina não recebemos apenas frente fria e turista tosco. Um argentino em férias no Brasil, "solito" e perdido na noite, é uma lady, uma moça de fino de trato. Em parte, nossos vizinhos de cerca confirmam a imagem que temos de Buenos Aires, uma cidade civilizada, culta e, sobretudo, exalando espírito. Entretanto, quando a galera arrogante bota o pé em águas brasileiras, em dupla, em trinca ou em bando, é um tsunami. Ou eles estão brigando, vão brigar ou estão descansando de alguma refrega.

Esta é a origem da polêmica que se trava tanto em Balneário Camboriú quanto nas tantas praias de Floripa: o que fazer para acabar com a violência no litoral? Fechar os bares após 23 horas, como querem fazer serra acima, ou então obrigar os argentinos a botar focinheira no ego?

Pode parecer inveja, despeito, até implicância, mas observe um argentino na praia jogando frescobol, por exemplo.

Pléc! daqui, pléc! dali, a bolinha corre longe dali.

Solícito, o passante apanha a bolinha que veio ao seu encontro e, muito gentilmente, devolve pro argentino. O gringo agradece, é claro:

– Muchas gracias!

– Pois não! – o manezinho responde.

Porém, parando para pensar, tomando um coco verde gelado, não é o que parece: seja no país onde se estiver, a regra de boas maneiras é clara: forasteiro agradece na língua nativa. Thanks!; grazie!; danke!; merci!; obrigado é uma palavrinha curta, fácil de memorizar em qualquer língua, um passaporte de boas maneiras que abre qualquer porta.

Em contrapartida, os brasileiros não estão sendo nada gentis com os argentinos. Nossos nacionais, antes tão subservientes, agora tratam no olho por olho, dente por dente. Bateu, levou.

No início de janeiro, cartazes anunciavam "un gran espetaculo" de box internacional no ginásio de esportes de Balneário Camboriú entre Brasil e Argentina. Foi um tremendo fracasso de público. Dias antes, cinco argentinos destrataram uma velha senhora que atendia num quiosque de praia, quando ela se recusou a receber a conta com uma nota de 50 pesos, descontar 10 despesas e devolver o troco em reais, no câmbio de 1×1. Como se quiosque de praia fosse uma casa de câmbio beneficente.

A velha senhora do quiosque, ao contrário do que os beligerantes esperavam, não estava indefesa. Com um simples telefonema, ela pediu ajuda aos universitários: os filhos e os amigos dos filhos, que naquele momento malhavam numa academia de ginástica nas proximidades. Deu-se então, em plena praia, e "de grátis", o que todos esperavam acontecer no ginásio de esportes: o tão propalado e esperado box internacional entre Brasil e Argentina.

A pancadaria começou na praia, invadiu o calçadão, tomou a avenida e foi parar na delegacia. Os policiais, advertidos de que o entrevero teve seu início com os gringos xingando Pelé de "macaco", foram de uma neutralidade exemplar: liberaram os brasileiros e botaram os argentinos no xilindró. Pela troco de 50 pesos, os pupilos de Maradona pagaram uma fiança de dois mil reais, per capita.

Até domingo; e você sabe por que tem tanto parto prematuro lá? É que nem as mães agüentam argentinos por nove meses…

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