Bolinhas de gude

Nem tudo está perdido neste mundo de Deus. Infelizmente não pude estar presente, mas se realiza na tarde de hoje, em Nova Trento, Santa Catarina, o tradicional “Torneio de Tilica” da cidade. Tilica? Pois é, “tilica”! Que, em bom “catarinês”, é o que nós conhecemos aqui como bolinha de gude. O jogo de nossa infância, com bolinhas de vidro, que em partes diversas do Brasil é conhecido por bolita, búraca, búrica, búrico, peca, firo.

É mais um milagre de Santa Paulina. Se muitos imaginavam as bolinhas de gude perdidas em alguma gaveta do sótão, ou num canto qualquer da memória, pois fiquem cientes de que em Nova Trento “tilica” é um esporte nobre e com dezenas de adeptos, valendo troféus e medalhas. Meninos de pés descalços, jovens com tênis de grife, senhoras e senhores compenetrados, todos carregando nos bolsos variadas coleções de bolinhas coloridas, com abstratos desenhos, dando destaque às suas respectivas “jogadeiras”, a bolinha campeã de cada um.

Se o torneio atiçou suas fantasias de guri, aos atletas da bolinha de gude registre-se que as inscrições se encerram às 14 h de hoje, no Bar Canto das Lagoas, o tradicional campo de competição. Mas no ano que vem tem mais, pois o torneio faz parte do calendário esportivo daquele município de 10 mil habitantes, divididos entre os que jogam “bocha” ou “tilica”. Os neotrentinos não só resgataram as bolinhas de gude dos tempos de piá, como também reivindicam a inclusão do jogo de “tilica” no rol dos esportes olímpicos. O que é perfeitamente justo, confrontando este pacífico jogo com o boxe, caratê, tae kwon do, luta livre, luta greco-romana e outros barbarismos que insistem em chamar de esporte.

Até por suas origens, as bolinhas de gude merecem reconhecimento olímpico. Na ilha grega de Creta, as crianças jogavam com pedrinhas de ágata ou jaspe em 1435 a.C. E na Roma antiga, o jogo era tão popular entre as crianças, que o imperador César Augusto chegava a parar na rua para assistir às competições de “tilica”. E bolinha de gude também é cultura, senhores do comitê olímpico: elas foram citadas na obra de Shakespeare e retratadas pelo pintor Pieter Brüegel. Se nos seus primórdios as bolinhas eram feitas de pedra, madeira, argila ou autêntico mármore, no século XV elas ficaram chiques, quando começaram a ser feitas de vidro, em Veneza e na Boêmia. No século XVII apareceram bolas de gude de porcelana e louça. As bolinhas de aço nunca foram bem recebidas, pois, ao enfrentar bolas de outro material, causavam danos nas demais. De Veneza ou da Boêmia, mesmo feitas de ouro, nenhuma delas se compara às multicoloridas bolinhas da nossa infância.

O jogo de bolinha de gude, para os de pouca memória, tem várias modalidades, como registrou Câmara Cascudo no Dicionário do Folclore Brasileiro. Aqui, dois exemplos, dos mais conhecidos.

Bolinha Box – São quatro buracos, na terra, que se chamam birocas ou box. Os jogadores, dois, três ou quatro, jogam suas bolas até a primeira biroca. Quem ficar mais perto, inicia jogando. Ele tem de colocar sua bola na primeira biroca, depois na segunda, terceira e quarta, ficando pronto para “matar” as demais. Se o jogador erra um lance de uma biroca para outra, começa a jogar o segundo colocado na escolha de saída. Quando um jogador cumpriu as quatros birocas sai para “matar” e quem ele acertar com sua bolinha é eliminado do jogo.

Em outro sistema, o jogador sai da quarta biroca para a primeira e faz todo o percurso até ter condições de “matar”.

Triângulo – O triângulo exige habilidade e perfeição do jogador. Faz-se um triângulo no chão. São colocadas bolinhas, dentro da área ou dos ângulos. Quem coloca a sua bola mais perto começa a jogar e a tentar acertar as bolas adversárias para fora do triângulo, ganhando-as. Termina o jogo quando não há mais bolas no triângulo. A aposta é feita com bolinhas e jogam-se quantas quiserem os participantes.

Até quarta-feira; chutando lata e com umas bolinhas de gude no bolso.

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