“Dante, veja oque achei no fundo da gaveta. Se Daniela Thomas visse este cenário morreria de inveja. Como diz o Millôr: Arte é intriga.” (Solda) Na fotografia, o cenário da peça teatral Bolas de Papel, de Manoel Carlos Karam. O ano era 1973, numa sexta-feira, 13 de julho. Era dia de estréia, numa sexta-13 à meia-noite. Na bilheteria, preço único: 5 cruzeiros. O palco era o do Teatro de Bolso, na Praça Rui Barbosa. Um teatro que não existe mais, cedeu o espaço para um terminal de ônibus urbano. O autor, os atores e os técnicos do espetáculo ainda atuam. Manoel Carlos Karam, o autor, depois de 22 peças encenadas e seis livros publicados, agora é um dos cem escritores alistados para o livro Os Cem menores Contos Brasileiros do Século, que a editora Ateliê Editorial lança no dia 12 de abril, na livraria do Espaço Unibanco, em São Paulo. O conto mínimo de Karam preencheu os requisitos para participar da coletânea: histórias inéditas, de até 50 letras, sem contar espaços, pontos e o título. Ao lado de Manoel Carlos Karam, alinham-se escritores como Dalton Trevisan, que contou esse conto de 43 letras. – Lá no caixão… – Sim, paizinho. – … não deixe essa aí me beijar. Glauco Matoso escreveu este: O EUTANAZISTA – Não podendo eliminar o resto da humanidade, suicidou-se. E Modesto Carone este: O ESPELHO DE NARCISO – Agora está claro: quem envelhece sou eu, não o retrato. Millôr Fernandes, foi bem ladino. Como o título não conta, criou um título muito maior que o conto. – Emocionante relato do encontro de teodoro ramirez, comandante de um navio misto, de carga, passageiros e pesca, do caribe, no momento em que descobriu que a bela turista inglesa era, na verdade, uma perigosa terrorista cubana, que tentava penetrar num porto do sul da flórida para dinamitar a alfândega local, e procurou forçá-la a favores sexuais. O mini-conto, propriamente dito, é o seguinte: – Capitão, tem que me estuprar em 1/2 minuto; às 8, seu navio explode. O conto de Manoel Carlos Karam tem 37 letras. Mas ele não conta o conto, para não tirar a surpresa do conto. O Teatro de Bolso da Praça Rui Barbosa era um miniteatro, alugado permanentemente pelo Grupo de Teatro Margem. Abrigava não mais de duzentas pessoas, mas tinha um público fiel, naqueles anos da ditadura. Dos mais cativos era o distinto público da Polícia Federal, que assistia aos espetáculos para conferir a estrita obediência da censura prévia. Para um miniteatro, minitemporadas. O Grupo Margem, com Manoel Carlos Karam à frente, montava e apresentava um espetáculo por mês. Ou mais, conforme a bilheteria, que era rateada entre os componentes do Grupo, assim como as despesas. Despesas muitas vezes financiadas com o cartão de crédito do Karam. Portanto, eram produções que cabiam no próprio bolso. O cenário de Bolas de Papel, foi realizado com caixas de papelão, recolhidas nas madrugadas, depois dos ensaios e das esticadas no Bar Triângulo, ali na Rua das Flores. Contando com outros autores, diretores (Antônio Carlos Kraide, por exemplo) e atores convidados, o Teatro Margem atravessou a grande noite da ditadura na contra-mão, para orgulho do grupo: Beto Bruel, é hoje um dos mais requisitados iluminadores do Brasil. Beto Guiz, ator e produtor, agora atua na produção e direção de tevê. Glória Flügel, de atriz virou fotógrafa reconhecida em São Paulo. Solda e Karam estão lançando livros, um atrás do outro. E este que assina embaixo é o ator à esquerda, de perfil, que também assinava o cenário. Até quarta-feira; e como também diz o Millôr: – Bons tempos, hein?! |
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