Se minha precária memória não falha, a última vez que botei fé num bingo foi numa festa de Igreja em Nova Trento, em honra a Santa Ágata. Mas sem muito fervor, porque aquelas cartelas são de um tédio mortal. Mas não sou suficientemente obtuso para deixar de reconhecer que este jogo de sorte e de azar tem lá seus fervorosos adeptos. Como há quem goste de apostar compulsivamente no jogo do bicho, ou na Mega-Sena. Todos jogos de sorte e de azar. E não apenas de azar, pois há também os contemplados: especialmente os donos do jogo, os donos da banca, ou donos do poder – a Caixa Econômica Federal.
Não sou a favor da jogatina, nem contra dona Mariquinha, aquela viúva que não sabe o que fazer com o tempo e a polpuda pensão que o marido lhe deixou. Dona Mariquinha é lúcida o suficiente para discernir se bota o dinheiro fora jogando bingo, jogando no bicho ou fazendo apostas milionárias na Mega-Sena. Sou a favor de dona Mariquinha e contra a hipocrisia. Do grego hipokrisía, afetação duma virtude, dum sentimento louvável que não se tem. Impostura, fingimento, simulação, falsidade. Falsa devoção, diz o Aurélio.
Recentemente, o escritor Mário Vargas Llosa escreveu um corajoso artigo defendendo as touradas, uma das mais robustas tradições da cultura hispânica. Para defender a tauromaquia, numa época marcada pela defesa de temas como a preservação da natureza e a necessidade de combater a crueldade de que os animais são vítimas, é preciso ser muito macho. “Hay que tener cujones”, como se diz numa tourada em Madrid.
Vargas Llosa não é um hipócrita. Ele reconhece que a festa dos touros está impregnada de violência e crueldade. E defendê-la, um constrangimento: “Isto cria em nós, os aficionados, um mal-estar e uma consciência desgarrada entre o prazer e a ética, em sua versão contemporânea”. Lembrando radicais defensores dos animais, para quem os matadouros de bois, cordeiros, porcos, frangos etc. são equivalentes aos fornos crematórios nos quais os nazistas incineraram os judeus, Vargas Llosa se atreve a supor: “Quantos partidários da supressão das corridas estão dispostos a levar suas convicções até este extremo e aceitar um mundo onde os seres humanos viveriam confinados ao vegetarianismo radical, ou pior, ao frutarianismo?”
O escritor peruano lembra: “praticamente não há animal comestível que, a fim de aumentar o apetite e o gozo do comensal, não seja submetido, sem que ninguém pareça se importar muito, a uma barroca diversidade de suplícios e atrocidades. (…) E o que dizer da caça e da pesca, também uma violência, esportes tão disseminados quanto prestigiados nos cinco continentes?” Se repudiamos o suplício do touro, repudiamos também o suplício de outros animais para suprir nossas necessidades alimentares. Podemos proteger todas as espécies, mas “o mundo está muito longe de alcançar esta utópica perfeição na qual homens e animais gozarão dos mesmos direitos e privilégios. Embora, está claro, não dos mesmos deveres, pois nada fará um tigre faminto ou uma serpente mal-humorada entender que estão proibidos pela moral e pelas leis, de comer um bípede ou fulminá-lo com uma picada”.
O que se depreende do discurso de Mario Vargas Llosa em defesa da tauromaquia, “que representa a condição humana, este mistério de que é feita esta nossa vida que só existe graças a sua contrapartida, que é a morte”, é também o discurso contra a hipocrisia.
Se a nossa sociedade fecha os olhos e convive perfeitamente com a marginalidade do jogo do bicho, ao mesmo tempo em que sonha acordada com o prêmio da Mega-Sena, por que levar ao suplício dona Mariquinha, aquela viúva rica? Quantos partidários da supressão dos bingos estão dispostos a levar suas convicções até ao extremo e lutar pela proibição ampla, geral e irrestrita de todas as modalidades de jogos? O jogo do bicho e outros bichos da Caixa Econômica Federal, inclusive.
Até quarta-feira, com a mesma opinião: casa de bingo é o retrato do Brasil atual. Uma parte jogando dinheiro fora, outra parte pedindo emprego.