Foi uma semana “punk”. Começou com o espetáculo de “desobediência civil” – se o mestre René Dotti permite usar o termo para a revolta da torcida atleticana na Arena da Baixada, contra o todo-poderoso Mário Exelcius Petráglia – e fechou com o frustrante desfecho da novela do salário mínimo. Nada comparável ao noticiário de “linha branca” – e aqui não se trata do setor industrial que lida com refrigeradores e eletrodomésticos, mas sim do segmento da economia brasileira que mais cresceu nas últimas décadas: cocaína, maconha e conexos. O noticiário “linha branca” se sustentou com a Rocinha, acompanhou Maradona e registrou o paredão do ex-BBB Buba.
Pagamos tributo à tragédia de Maradona com a moeda da galhofa. A mesma com que los hermanos nos distinguem: 1-Maradona disse que, longe do hospital, vai retomar a carreira. 2- Ele já está bem e cheirando sem aparelhos. 3- Ele precisa emagrecer: a partir de agora, só coca light.
Quanto ao ex-BBB Buba, a Tribuna do Paraná o tratou com justa manchete: Big Burrada Brother. Se foi um bom prato para a imprensa, foi prato cheio para internautas e novidadeiros do celular: alguns não acreditando que no figurino do jovem mancebo fossem caber 18 comprimidos de ecstasy e 50 gramas de maconha; e outros, de ilustres famílias do Batel, imaginando quantos comprimidos filhos e netos podem ter consumido, na órbita do fugaz astro que foi do êxtase ao ecstasy.
Com o ex-BBB Buba já fora de pauta, surgem outros temas correlatos. Um deles foi levantado pela escritora Lya Luft: “Cada vez que um de nós consome uma droga qualquer (mesmo o cigarrinho de maconha dividido com a turma), está botando no cano de uma arma a bala – perdida ou não – que vai matar uma criança, uma mãe de família, um trabalhador”.
Outro ponto de vista, bem mais polêmico, foi da jornalista Cora Ronái: “Está na moda condenar os usuários de drogas como co-responsáveis, quando não responsáveis diretos, pela violência que assola a cidade. Além da idéia bizarra de que só existe violência por causa das drogas, há um raciocínio simples (e simplista) por trás disso: “Se ninguém consumir, os traficantes não terão a quem vender”. De fato. Onde não há demanda, não há oferta. Mas é tão fácil dizer “parem de consumir!” quando não consumimos nada, não é? Agora olhem em volta e vejam quantas pessoas vocês conhecem irremediavelmente viciadas em substâncias legais: chope, uísque, tranqüilizantes, cigarro, carboidratos… Eu mesma, por exemplo, que não fumo nem bebo, preciso emagrecer. Muito. Não estou acima do peso porque quero, porque desconheço o mal que isso me faz à saúde ou porque me agrade; pelo contrário. Meu maior desejo seria entrar em forma. (…) Minha sorte é que a dependência química de açúcar não me põe forçosamente em contato com criminosos. Posso comprar chocolate em qualquer lugar sem ser ameaçada de morte por traficantes, sem ser achacada por maus policiais, sem correr o risco de ir em cana. Se amanhã o chocolate for proscrito, eu talvez agüente uma ou duas semanas, mas é provável que, mais cedo ou mais tarde, acabe indo buscar uns bombons de cereja onde quer que seja, ao preço que me pedirem. (…) Para mim, o único meio de se resolver o problema das drogas é fazendo com que elas deixem de ser um problema – pelo menos, um problema de polícia. (…) O consumo não é, em si, um caso de polícia. É caso de saúde pública – o que não significa que os dependentes sejam coitadinhos doentes e inimputáveis, pelo contrário. Mas são, ainda assim, pessoas que precisam de tratamento. Se isso já é difícil em plena legalidade (vide alcoolismo), que dirá na ilegalidade…”
Faço minhas as palavras de Cora Ronai, esse doce de gente.
Até quarta-feira, mas, na terça-feira (4), tem o lançamento do livro de Luiz Antonio Solda, às 19:00 horas, no Beto Batata. O prefácio é do cartunista Jaguar.