Quando outubro chegar, Curitiba vai ganhar bons motivos para se denominar uma ?cidade sorriso?: o cartunista Quino vem nos visitar e a cidade vai lhe render homenagens com uma grande exposição no Solar do Barão das obras do criador da Mafalda.
Nos anos 70s, a ditadura militar expatriou milhares de ?hermanos? argentinos, causando uma diáspora de seu povo pelo mundo, principalmente artistas e intelectuais. Joaquim Salvador Lavado, o Quino, fugiu para Milão, na Itália. Morava num dos poucos andares de um velho edifício milanês e a paranóia vinha visitá-lo de quando em quando. A sinistra lembrança dos generais causava entre os exilados o incessante desconforto de que a qualquer momento a campainha de casa tocasse e um automóvel Falcon estivesse aguardando de portas abertas para uma viagem sem volta aos porões de Buenos Aires. A paranóia tinha cenários de veracidade, muitos dos perseguidos embarcaram em aviões para atravessar o oceano e nunca mais pisaram em terra firme.
Naquele vetusto prédio de Milão onde Quino se escondia, a paranóia morava em frente à sua janela. Aos amigos e conhecidos que pediam endereço, o já famoso cartunista o fornecia com afeto, sempre com uma sombra de desconfiança. Quando o visitante chegava ao local, encontrava a caixa de correspondência e o interfone do apartamento indicado. Depois de soar a campainha, vinha uma voz inquisidora que abriria a velha porta para subir, ou não.
Caso fosse uma feliz visita, o exilado Quino então desvendava o segredo do esconderijo italiano:
– Bienvenido, amigo. Estou vendo-o pela janela do prédio às suas costas. Por favor, atravesse a rua e aguarde na porta bem atrás de você. Estamos descendo e vamos recebê-lo em seguida.
Assim eram recepcionados os conterrâneos, os bons amigos, até o carteiro. O real endereço era no lado oposto e do alto da janela em frente o pai de Mafalda passava em revista a paranóia.
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Os curitibanos Stela (Teca) e Rômulo Sandrini chegaram a visitar Quino no endereço da campainha em frente, atravessaram a rua para visitar os amigos que conheceram num congresso médico: Teca é artista plástica e Rômulo é médico, assim como Alicia, a mulher do cartunista, é doutora.
Da antiga e feliz amizade com o casal Sandrini é que se deve a vinda de Quino para Curitiba, porque será um privilégio para a Fundação Cultural de Curitiba reunir tantas obras do artista e realizar a rara exposição que vai ocupar todo o andar central do Solar do Barão, entre os dias 19 de outubro e 19 de novembro.
Quino já conhece Curitiba pelas mãos de Teca e Rômulo. Desta feita o amigo chegará um dia antes da abertura da mostra e durante sete dias vai rondar a cidade para também comemorar os 24 anos da Gibiteca de Curitiba, a mais antiga da América Latina.
No mesmo período e local, o cartunista Solda será homenageado com uma sala especial, e que se prepare: foi ele o escolhido para dividir a mesa-redonda com o argentino, onde os dois mestres vão discorrer com o público acerca do tema ?Ética e cidadania?.
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Nascido em 1964, Joaquim Lavado ?matou? sua estrela internacional em 1973; até hoje os fãs choram por Mafalda: ?Dejé de hacer Mafalda después de otros 10 años porque me di cuenta que me costaba mucho esfuerzo no repetirme, sufría con cada entrega. Cuando uno tapa el último cuadrito de una historieta y ya sabe cual va a ser el final es porque la cosa no va. Y por respeto a los lectores y a mis personajes y por mi manera de sentir el trabajo decidí no hacerla más y seguir con el humor que nunca dejé de hacer?.
Com o sopro de Quino, Curitiba vai reviver Mafalda. Durante um mês, ?la pequeña chica y sus amiguitos? estarão nas ruas da cidade, rediviva na graça de atores de teatro que encenarão as tiras de Quino em nossos bairros, praças e terminais de ônibus.