Nesta quinta-feira Curitiba vai acolher o tenente-coronel Hugo Rafael Chávez Frías, presidente da República Bolivariana da Venezuela. Vem a convite do jornalista Roberto Requião de Mello e Silva, governador do Estado do Paraná. Bienvenido, esta capital de primeiro mundo tem muito o que mostrar ao líder do terceiro mundo.
Curitiba, senhor presidente, é uma cidade progressista, ordeira e muito limpinha. Tem uma área de 430,9 km, para uma população de 1.727.010. Mas, em 15 minutos, um punhado de migrantes aqui chega para desmentir os números oficiais. Ela foi fundada oficialmente em 29 de março de 1693. Extra-oficialmente, renasceu em 19 de maio de 1972 , data do fechamento da Rua XV de Novembro para veículos, quando a municipalidade rebatizou a via central com o nome de Rua das Flores, e ganhou referência internacional de planejamento urbano.
Dizem que somos um povo muito tímido e até ensimesmado, uma gente muito exibida. É tudo verdade. Gostamos de nos gabar das nossas piores virtudes e dos nossos melhores defeitos.
No século XVII, essa gente vivia da mineração, aliada ao feito da roça. No ciclo seguinte, que varou os séculos XVIII e XIX, a então Quinta Comarca de São Paulo se fez pousada de tropeiros condutores de gado que circulavam entre Viamão, no Rio Grande do Sul, e a Feira de Sorocaba, em São Paulo, conduzindo gado cujo destino final eram as veredas das Minas Gerais, e os vaqueiros do escritor Guimarães Rosa.
Da indústria à agricultura, da educação à infra-estrutura, por certo esta Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais abriu seus próprios caminhos e isso o governador Roberto Requião há de mostrar ao ilustre chefe de Estado que nos visita.
"El comandante", posto que gostamos de nos gabar das nossas piores virtudes e dos nossos melhores defeitos, eis alguns pontos onde a cidade pode lhe proporcionar exemplos e prazeres.
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Da indústria, muito nos ufanamos. Especialmente da "indústria das multas", que carrega aos cofres públicos recursos suficientes para resolver os problemas de uma cidade que tem um veículo para cada três habitantes. Na periferia – onde ainda não foi prospectado petróleo, ao contrário do que parece – uma outra indústria nos causa especial orgulho: a "indústria das invasões", nas poucas áreas que ainda nos restam ao deus-dará.
Quanto à crucial questão do emprego, isso não nos amofina. Tanto, que a principal discussão que se arrasta no Legislativo trata-se da Lei do Nepotismo. Reza a lei que o pleno emprego está resolvido. Só nos falta arrumar trabalho para os parentes.
Meio ambiente e planejamento urbano são os nossos maiores orgulhos e os arquitetos nossos maiores ícones. Neste quesito, batemos as estatísticas do trânsito: temos, nada mais nada menos, do que três urbanistas para cada habitante.
Se o Paraná é um Brasil diferente, Curitiba é mais diferente ainda: a vergonha da fome na América Latina não nos afeta. Temos restaurantes para todas as faixas sociais e podemos indicar os de Santa Felicidade, exemplo de refeições populares que a Venezuela jamais viu. Por supuesto, o senhor presidente será recebido na Granja do Cangüiri, residência oficial do governador, este um paradigma da melhor culinária paranaense. Entretanto, devagar com os pratos que a emoção tem tempero forte: num recente ágape, o cartunista Ziraldo quase morreu do coração.
Afora uma bela criação de jacarés no Parque Barigüi, também se encontra na Granja do Cangüiri o que de melhor temos a mostrar na pecuária. Em meio à típica paisagem curitibana, a criação de cavalos trotadores do governador atrai muitos visitantes ilustres. Mas acautele-se com os pangarés, senhor presidente: muito político vaidoso já caiu do cavalo naquelas pradarias.
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Nos finalmentes, desejando-lhe uma confortável e profícua estada, Curitiba ergue um brinde à América Latina e à Venezuela, com uma última recomendação: se os brindes forem além da conta, e alguém em torno chamar o "hugo", não é "usted", esse é um outro que brindou demais.