Juízes e parlamentares reagiram furibundos à declaração de Lula de que só Deus será capaz de impedir o Brasil não ir pra frente. Foi o estopim de uma crise que quase abalou os alicerces da nação. Não fosse um pronto desmentido presidencial, o Palácio do Planalto seria hoje uma verdadeira Bombonera. Na verdade, a crise foi desfeita por uma frase lapidar que ficará para os anais da história:
– Quando um não quer, dois não brigam!
Convenhamos, o presidente foi muito afoito. Consultado sobre o assunto, Mário Celso Petráglia foi taxativo, logo após saber da declaração de Lula da Silva:
– Se depender de mim, absolutamente, não vou impedir que o Brasil ocupe um lugar de destaque no cenário mundial!
Assim, serenados os ânimos de juizes e parlamentares afrontados, resta agora um outro problema para Lula administrar: os semi-retas, entrincheirados dentro e fora do Palácio. Eles praticamente tomaram conta da agenda presidencial. Hoje, pra decidir entre um carneiro no buraco ou uma costela do catarina na Granja do Torto, nem dona Maria tem mais poder de escolha. No máximo, escolhe as carnes menos calóricas e gordurosas. Evidentemente, o ministro José Dirceu ainda detêm o maior poder de decisão no círculo íntimo do presidente, restrito a escolha das gravatas e aos altos cargos das estatais. No mais, o MST está dando as cartas.
Os sem-terra devem resolver a questão fundiária do Brasil nas próximas semanas, assim como já resolveram a questão do pedágio aqui no Paraná. O nó da taxa de juros é um pouco mais complicado. Mas não insolúvel: segundo líderes do MST, uma comissão está reunida na região do Pontal, onde deve sair um indicativo para reduzir os juros a preço de banana.
Claro, boa parcela da sociedade brasileira organizada ainda torce o nariz quando escuta o discurso de um sem-terra descamisado e com os pelos do sovaco à mostra. Ignoram que o movimento pode e tem capacidade para resolver essas questões cruciais do Brasil. Se o ministro Palocci, que é médico, cuida da saúde financeira da nação, porque um sem-terra não pode cuidar das questões de Estado? Ora, assim como doutor Palocci sabe tratar cientificamente de uma erisipela, um sem-terra aprendeu desde criancinha que erisipela se cura com um bom benzimento e mais nada.
Se o Palocci não sabe, erisipela se benze fazendo o sinal da cruz e dizendo: “Nosso Senhor Jesus Cristo, peço te desaparecer e o Fulano (dizer o no me do coitado) por ti não padecer para sempre”. Pegar uma aliança benta e ir passando ao redor da irizipela, rezando um Creio em deus Pai. Em seguida, fazer uma cruz sobre a ferida, com a aliança, rezando um Salve Rainha até terminar e dizer: Fulano estará são em nome de Jesus. Amém!
Que Fernando Henrique deixou o Brasil bichado, até um farmacêutico prático já sabe. O que o doutor Palocci não deve saber é de benzimento para a bicheira, coisa que os sem-terra têm na ponta da língua: pegar três folhas de capim verde, fazer o sinal da cruz e dizer: “Esta bicheira haverá de vingar tanto como o meu serviço dos domingos e dos dias santos para sempre. Amém.”
Se o presidente depender menos do doutor Palocci ,até as peladas na Granja do Torto podem transcorrer sem maiores preocupações, pois para quem descolou as costas, ou deu mau jeito, nada que um benzimento não resolva: colocar uma tesoura aberta debaixo do colchão onde a pessoa dorme, sem que ela saiba.
Agora, se as coisas ficarem pretas, a reza do povo não falha:
– Contra pressão alta, fazer chá de folhas de gabiroba. Contra a prisão de ventre, fazer a massagem aquecida nos pés, pernas e dar de beber um chá de endro, bem forte, que já melhora. E para regular o intestino, usar óleo Gaduol.
Até domingo, dona Cecília Isganzella, que sabe tudo de rezas e simpatias.