Nosso brilhante escritor não tem saudades do latim, mas tem saudades do passado. E ?não tem saudades do presente, tem saudades do futuro?, tomando uma frase de outro nosso escritor, Manoel Carlos Karam, da peça teatral O avião parte às cinco.
Em sua coluna de domingo passado, Wilson Bueno lembra que ?há muitas espécies de saudosismo. Nenhum particularmente mais saudosista, sobretudo nestes tempos de novos e velhos papas, ou velhos papas novos, a exemplo deste Bento XVI, do que a nostalgia do latinório?.
Bueno é dos nossos: ?Sou do tempo em que, no antigo ginásio, o latim era obrigatório. Um horror?. Se era um horror para a turma de Wilson Bueno, onde ?nem o primeiro aluno da classe alcançava passar de um modesto seis nas provas mensais em que nos obrigavam a avaliar o latinório perverso de cada tarde do Colégio Estadual Rio Branco?, era ainda mais perverso aos que iniciaram o ginásio no seminário.
Aqui ao lado, lembra Mussa José Assis, ex-seminarista: ?No primeiro ano de ginásio tínhamos latim, francês, português, matemática, história, geografia, desenho, música, educação física e trabalhos manuais. Afora técnicas agrícolas, que horticultura era prática obrigatória. No segundo ano, entravam inglês, italiano, além de matemática, química, física e biologia. No ano seguinte – por Zeus! -, grego clássico. História e geografia se dividiam em geral e do Brasil. Na semana, de português eram seis aulas e latim sete, sendo duas num mesmo dia. Um horror. E ai de quem não cumprisse as lições, condenado a ficar encostado num dos pilares do sombrio corredor, decorando a bíblia. Em latim. Ou as fábulas de Esopo. Também em latim. Um horror.
?Tudo isso depois da missa das cinco da manhã, quando era oficiada a nossa missa de cada dia, em latim, antes do pão e café nosso de cada dia, quando o estômago roncava também em latim. Aos domingos, eram duas as missas matinais: a missa das cinco e a missa das dez. Essas missas dominicais nem sempre eram em latim, graças a Deus. Domingo sim, domingo não, eram em francês, ou italiano. Para refrescar a memória, no final da tarde tínhamos uma hora de futebol, com cinco minutos extracurriculares para roubar frutas no pomar?.
Menino aplicado, Mussa resistiu três anos nessa ladainha. Menino levado, resisti bem menos e fui pagar meus pecados num colégio agrícola, onde a rotina e a comida intragável eram as mesmas. Com exceção do latinório, do grego clássico e da biblioteca eclesiástica, que de vingança troquei pela biblioteca herética: O crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, Iracema, a virgem dos lábios de mel, de José de Alencar, A carne, de Júlio Ribeiro, Eu e o governador, de Adelaide Carraro, todas as ?teúdas e manteúdas? de Jorge Amado e os ?catecismos? de Zéfiro.
Confesso que do latinório não me sobrou uma ave-maria, nem meio Pai-nosso: Pater Noster, qui es in caelis, sanctificetur nomen tuum, adveniat regnum tuum, fiat voluntas tua sicut in caelo et in terra. Panem nostrum quotidianum da nobis hodie, et dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris, et ne nos inducas in tentationem, sed libera nos a malo. Amen.
Do Pai-nosso inteiro, sabia inteiro apenas o faz de conta, mais ou menos assim: Paternossoquernicheri, santifiquerinometuo e adivenharéguatuon, fiatevolutatua, sicutemincaleterra, pãonossocotidianum dasnobisrodi…?, e segue a missa. É bem verdade que o meu Pai-nosso, em latim labial, era melhor do que o de muitos políticos, que do Pai-nosso só sabem até o ?venha a nós? (adveniat regnum tuum).
Em suma (olha o latim aí, gente!), foram tantas as missas, comunhões, novenas e ladainhas, que já gastei até o meu latim gutural. Do latinório ainda na memória, alguma coisa é de boa valia: nas eleições dos papas, aos que perguntavam o que significava habemus papam, respondia na lata: temos papa. E ainda corrigia: papa com m no final.
Do latim que não morreu, caro Wilson Bueno, foi o que me sobrou. Além de uma vaga lembrança de não saber o que estava perdendo.