Avacalhações

 A história teria se passado com o escritor Paulo Francis, enquanto lustrava os sapatos e pichava o comunismo. O engraxate, compenetrado na dissertação de Francis, passou sua flanela na conversa: ?Doutor, deixa vir esse tal de comunismo, a gente avacalha com ele?.

A frase não deve estar com todas as letras, que a fiação da memória já está prejudicada, mas, em suma, o que o engraxate carioca bem expressou é que, pelo sim ou pelo não, deixem vir o desarmamento: o brasileiro não desiste nunca e qualquer executivo de fronteira avacalha com ele. Avacalhação é com a gente mesmo.

O PT, último moicano da ética, foi avacalhado por um flanelinha careca que engraxou os coturnos e os bolsos do mais alto escalão da República. Por conseguinte, a televisão mostrou ao vivo a avacalhação nos plenários das CPMIs, onde o comportamento daqueles senhores não se compara à sala de visitas da extinta boate Quatro Bicos, reduto da falecida cafetina Maria Japonesa, antigo endereço no bairro Cajuru da mais alta distinção e fidalguia.

O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil? – O referendo nasceu avacalhado, com uma pergunta avacalhada – o povo é chamado para dizer ?sim? à proibição e ?não? às armas – dentro de um projeto avacalhado que, de tão avacalhado, posteriormente ainda requer lataria e pintura para ficar em condições de uso.

O brasileiro não é um avacalhado. Avacalhada não é uma vaca com aftosa, vítima da avacalhação sanitária. Porém, se é para avacalhar, a avacalhação precisa ser ampla,s geral e irrestrita, e apenas um referendo não contempla os mais diversos segmentos organizados da sociedade, o arco da sociedade, se é para avacalhar o discurso.

Avacalhado, o deputado Zé Dirceu não merece um linchamento público, assim ele afirma. Merece mais do que isso, é um personagem que já fez por merecer um referendo, e o povo brasileiro deve responder a pergunta:

– O poder de fogo do Zé Dirceu deve ser proibido no Brasil?

O injustamente avacalhado vice-presidente José Alencar conhece esta avacalhação, mas não lembrou de realizar um plebiscito sobre as taxas de juros, as mais altas do planeta. O brasileiro merece responder a pergunta:

– Quem devia 10 mil reais em cheque especial ou cartão de crédito no primeiro dia do governo Lula, caso não possa abater nada do débito, estará devendo no dia que ele deixar a presidência a quantia de 967.170 reais, à base de 213% ao ano, em taxas redondas.

(Não, a política econômica do Palocci não deve mudar. Sim, a política econômica do Palocci deve ser mantida.)

O avacalhado Conselho Nacional de Jornalismo sugeriu e o governo Lula enviou para o Congresso a proposta de formação de um Conselho Nacional de Jornalismo, cujo objetivo foi imediatamente avacalhado: ?Orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão de jornalista e da atividade de jornalismo?. A proposta, com o aval de Zé Dirceu, ordenava que, para trabalharem, todos os jornalistas teriam de estar inscritos no órgão e submetidos a possíveis penalidades, que poderiam ir da advertência até a cassação do registro profissional.

O ovo da serpente não gorou. Antes tarde de que nunca, um referendo pode ?resgatar? a avacalhada pretensão. Às urnas, companheiros, com a pergunta:

– O exercício da profissão de jornalista e da atividade de jornalismo deve ser orientado, disciplinado e fiscalizado no Brasil?

(Não, não deve ser desorientado, indisciplinado ou sem fiscalização. Sim, deve ser orientado, disciplinado ou fiscalizado.)

Por último, e não menos importante para os destinos da avacalhação, o referendo que não quer calar:

– Lula sabia?

(Não, Lula não sabia. Sim, Lula sabia que o sabiá sabia assobiar.) 

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