Atentados e vergonhas

No dia 11 de setembro, o escritor Manoel Carlos Karam saiu de casa disposto a praticar um atentado. Consumado o ato, contou: “Sim, cometi um atentado poético. E com munição própria”. Atendendo a mobilização mundial iniciada em agosto, Karam largou um exemplar de uma de suas obras num lugar qualquer de Curitiba. Rolando na internet, a campanha pedia: “Na manhã de 11 de setembro, não se esqueça de sair munido de um livro seu que tenha sido importante. Um livro que tenha mudado sua maneira de ver o mundo. Escreva uma dedicatória… e o libere. Libere-o na via pública, sobre um banco, no metrô, no ônibus, no bar , no café… à mercê de um leitor desconhecido”.

A mobilização deu certo, sim, por que não? Manoel Carlos Karam liberou seu livro em algum lugar e em tantos outros lugares outras obras foram liberadas. Em São Paulo, o escritor Marcelino Freire largou na Vila Madalena vários livros: um deles, uma obra do nosso Jamil Snege. Assim, um paulistano deve estar descobrindo o turco sedutor.

Ainda em São Paulo, o ator Raul Cortez revelou um dia antes, numa entrevista, que deixaria o Alcorão na Praça da Sé. Na quinta-feira, Cortez não só liberou a obra sagrada dos mulçulmanos, como também recebeu telefonemas indignados de amigos judeus, o acusando de ser “mulçulmânico”. Segundo Cortez, sua idéia era abandonar o livro sagrado muçulmano e, em contrapartida, ter a sorte de encontrar a bíblia pelas ruas.

Não encontrou, infelizmente. Quem encontrou o que queria foi o aposentado Horácio Delogu, que achou um outro livro largado por Marcelino Freire: “Notas de um Velho Safado” de Charles Bukowski, com a seguinte dedicatória: ” Enquanto espera, aí vão algumas notas do Bukowski um velho aqui da Vila. Hoje, 11 de setembro”. O senhor de 76 anos pegou o exemplar, certificou-se que não tinha dono e guardou a obra, com um comentário: “Ele deixou para a pessoa certa”.

A lista dos livros largados por Marcelino Freire pode ser acessada em seu próprio blog. Num outro blog da internet, dizia a “Menina Má”: “Eu não vou liberar nenhum… mas vou pegar todos que aparecerem na minha frente. Eu sei, eu não presto. Mas nunca disse que prestava”.

Também digo que não presto, confessando duas pequenas vergonhas. Imaginei praticar dois atentados poéticos. Num deles, para me redimir, largaria um livro de Monteiro Lobato. Coisa que não fiz, pois iria desfalcar nossa coleção deste autor que marcou a infância de gerações. A minha, particularmente, pois ainda me encantam os ilustradores das obras de Lobato. Tanto que, nas Bibliotecas Públicas, este rato de biblioteca destacava e roubava todas as páginas ilustradas em policromia. Que vergonha!

Noutro atentado, assim como Manoel Carlos Karam, também usaria munição própria: pensei em largar meu livro de charges publicado no século passado, “Álbum de Figurinhas e Figurões”, num banco de praça, em Ponta Grossa. Assim tão distante, pra lá do Parque Barigüi, recuei do propósito. Mas a cidade seria bem a propósito, ainda para me redimir: quando da noite de autógrafos, em Ponta Grossa, consegui vender um, apenas um exemplar! Que vergonha.

Finalmente, não realizei meu atentado poético como devia ser. No dia do atentado, Luiz Augusto Xavier, por coincidência, ou não, me havia devolvido “Tempos Interessantes”, de Eric Hobsbawn, que já havia passado pelas mãos de outros três companheiros de Redação, desde o verão passado. Imediatamente, das mãos de Xavier, passei para as mãos do também jornalista Christian Toledo. Assim, no dia 11 de setembro não deixei nenhum livro. Fui deixando…

Até quarta-feira, e até o próximo atentado.

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