Há quem aposte que quando Zagallo morrer, as manchetes dos jornais serão as mesmas: ?Zagallo morreu, treze letras?.
Zagallo caduco, 13 letras, ou supersticioso, 13 letras? Mário Lobo Zagallo é, isto sim, um brasileiro excepcional. Enquanto a tradição diz que o número 13 é o numeral do mal, do sinistro, do terrível, o franzino ponta-esquerda de saudosa memória considera este número um amuleto da sorte.
A mística do número treze vem de séculos e o mistério que cerca o 13 está estampado na Santa Ceia: à mesa, eram doze os apóstolos; 13 com Ele, o que morreu na cruz. Judas se levantou antes da sobremesa, e o nefasto episódio é narrado no capítulo XIII do Evangelho de São João.
Desde então, a primitiva etiqueta cristã considera que não é de bom tom reunir 13 pessoas à mesma mesa para jantar. É uma deselegância, pois são grandes as possibilidades de um dos comensais morrer antes que aquele ano termine.
Bem antes de São Pedro cravar a primeira pedra na sua igreja, os hindus consideravam o 13 coisa do demônio e a cabala já enumerava a existência de 13 espíritos malignos. A etimologia da palavra confirma: ?superstição? significa o que subsiste, aquilo que sobrevive. E o temor ao número 13 chegou aos nossos dias. Em alguns edifícios não consta o décimo terceiro andar, hotéis não relacionam apartamentos com o número 13. O mesmo sucede em muitos cinemas e teatros que não contam com a fila maldita, por medo de algum desastre coletivo. Bem a propósito, o capítulo 13 do Apocalipse é dedicado ao anticristo e à besta.
No reverso do azar, mestre Zagallo tem lá os seu discípulos que penduram o 13 em pulseiras e colares como amuleto benéfico e se atribui aos nascidos no dia 13 uma certa proteção e sorte. Pode ser um paradoxo, mas o próprio cristianismo encontra bons augúrios no número 13 e invoca a proteção das trezenas – praticadas durante os 13 dias que antecedem a festa de um santo – de Santo Antônio, que morreu no dia 13 de junho de 1231!
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Zagallo e seus discípulos foram expulsos do paraíso por Zidane e num sábado retornaram mais cedo para casa.
Ademar, coitado torcedor brasileiro, perdeu o rumo de casa. Naquele mesmo dia vestiu uma camisa amarela e saiu por aí, foi assistir ao jogo no telão do Bar El Coqueiro, na Avenida 7 de Setembro. Bebeu todas. No segundo chapéu de Zinedine Zidane em Ronaldo Nazário, fez o translado da cerveja para o uísque. Pura premonição. Quando o juiz sacramentou a vergonha, Ademar já estava a caminho do apartamento na Avenida Getúlio Vargas, 13 letras, ali nas imediações do El Coqueiro.
Abriu a porta e se jogou no sofá. Nem ainda roncava quando sentiu algo gelado no cocuruto, o cano frio de um revólver. Ao virar a cabeça, o rosto que estava no outro lado da arma se arregalou num susto:
– O que tá fazendo aqui, seu Ademar?
Ademar padecia de amnésia alcoólica. Esquecera que recém tinha vendido aquele apartamento e, com a velha chave reserva, acabara de cometer o delito de invasão da propriedade alheia.
Com a vergonha que não havia visto no rosto de Roberto Carlos, Ademar se botou na rua sem nenhuma palavra. Pegou um táxi e ordenou com a voz ainda grogue:
– Toca para a Rua Inácio Lustosa, 13 letras, esquina com a Duque de Caxias, 13 letras.
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A história assim sucedeu, ou não me chamo Dante Mendonça, 13 letras.