Esta coluna não tem critérios. Mas se preciso reconhecer algum, seria este: não escrevo nada que não possa ser contado perante minha sogra, dona Luiza Grein do Nascimento. É certo que a irreverência às vezes passa da conta, é de ofício. Elegante e de espírito, dona Luiza me enviou uma página da Folha de S. Paulo, onde o articulista comenta as recentes desavenças entre brasileiros e argentinos, como se ela me dissesse: a história merece outros capítulos.

continua após a publicidade

No artigo da Folha de S. Paulo, o jornalista Marcelo Coelho escreveu sobre a ?Grandeza e miséria das piadas de argentino?.

– O que dá um cruzamento de um paraibano com um argentino? Um zelador que acha que é dono de prédio.

– Por que não há terremoto na Argentina? Resposta: porque nem a terra os engole.

continua após a publicidade

Marcelo Coelho registra estes chistes e pergunta: ?Mas o que os argentinos fizeram contra nós, além de ganhar algumas partidas de futebol? E qual o fantasma que, debochando deles, queremos expulsar de nós mesmos?? (…) ?É assim que, rindo das pretensões de superioridade do país vizinho, de alguma forma esquecemos o ridículo das nossas.?

Sabe por que brasileiro gosta de tango? Porque em cada tango morre um argentino. Mas será mesmo que brasileiro gosta de tango, mas não gosta de argentino? Quem disser que não gosta, que atire a primeira pedra. Vai faltar pedra, porque argentino não sabe quem atira pedras, mas sabe porque leva tantas pedradas. Leandro Desábato, o boleiro portenho, foi acusado de insultar de forma preconceituosa o brasileiro Grafite. O debate que se seguiu é de chorar. Mas não chores por mim, Argentina. Choremos por tanta hipocrisia, tanto de lá, quanto de cá. Negros, negritos, macacos, macaquitos são expressões racistas com que há muito os jornais esportivos portenhos vêm apedrejando os brasileiros para revidar de derrotas e humilhações no campo de esportes. A própria torcida (los hinchas) do Quilmes, time de Desábato, fez questão de estampar isso em cartazes junto às arquibancadas: negros, negritos, macacos, macaquitos.

continua após a publicidade

Por outro lado, no outro lado do Rio Paraná nós, brasileiros, sempre usamos das mesmas expressões racistas dos argentinos para ofender também nossos grafites da vida, traduzidos em alto e bom som na chula língua portuguesa. Quem disse que não existe preconceito racial no Brasil fora ou dentro das quatro linhas, com ofensas em português ou portunhol? Ofensas racistas acontecem e sempre aconteceram nos campos do Brasil, sem que nunca ninguém tivesse sido denunciado e punido.

São muitas as opiniões sobre a prisão do jogador argentino, todas condenando os xingamentos e qualquer outra forma de agressão racista. Mas uma outra opinião é unânime: brasileiro tem pouca memória e este episódio brevemente deve estar embrulhando peixe com as páginas de jornais. Assim aconteceu com a atriz global Carolina Ferraz, quando insultou uma trabalhadora doméstica, barrando a brasileira negra no elevador social do prédio onde morava. Ao contrário de Leandro Desábato, Carolina Ferraz não foi desfilar na cadeia e continua transitando pelas sociais.

Uma das minhas tantas falhas de currículo é não conhecer Buenos Aires, como constata Marcelo Coelho: ?Seria preciso pesquisar, mas acho que o início das piadas de argentino coincide com nosso turismo de massa rumo a Buenos Aires e Bariloche, a partir dos anos 70. E com a crise do milagre econômico, pouco depois. Defrontamo-nos com uma dupla experiência. Primeiro, pudemos tomar contato com uma cidade incrivelmente mais ?civilizada? e ?européia? do que as nossas. O aspecto mais antigo, mais estável e refinado de Buenos Aires – e de seus pedestres de terno e gravata – pode ter substituído em nosso imaginário o lugar do ?povo mais velho?, do ?passado europeu? ocupado pelos portugueses.?

Argentinos, conheço poucos. Destes, cito quatro: os cartunistas Hermenegildo Sábat, Crist, a também escritora Ana Von Reuber e o professor Hugo Mengarelli. Acho que num próximo encontro podemos chorar abraçados, de tanta estupidez às margens do Rio Paraná.