As goiabas da Santa Paulina

A inauguração do novo santuário de Santa Paulina mudou uma antiga configuração de Nova Trento: antes, os seus dez mil habitantes cabiam dentro das dezenas de pequenas igrejas do município. Agora, não cabem nem mesmo no novo templo, projetado para 3 mil pessoas, tantos os devotos em busca de um altar para rezar.

No domingo passado, com a temperatura em torno de 35 graus, foram poucos os neotrentinos que presenciaram a inauguração do santuário e a "prática" (homilia) do arcebispo de Florianópolis, dom Murilo Krieger. Para os nativos daquele colônia italiana oriunda de Trento, na Itália, a sexta-feira anterior foi o dia consagrado ao povo de Nova Trento conhecer, em procissão, os 6.925,56 m2 de área coberta do moderno santuário. Domingo foi de "recolhimento". Os menos fiéis foram à praia, a maioria assistiu à cerimônia pela tevê, enquanto aguardava o churrasco do almoço, com muito foguete e cerveja gelada, porque o dia era de festa e a estátua de Santa Paulina também não é de ferro.

Enquanto os meninos da cidade contavam da varanda o número de ônibus e automóveis que se dirigiam ao santuário, as Irmãzinhas da Imaculada Conceição contavam à imprensa o quanto custou para erguer aquele monumento encimado por uma cruz de seis toneladas e dez metros de altura. Quinze milhões ou dois tostões, tanto faz. Atualmente, o vil metal escorre aos cofres da congregação assim como uma fonte ainda move as pás de um velho moinho daquele verde vale do Vígolo, localidade que é também palco de uma milionária especulação imobiliária.

Mas nem sempre foi assim. Em 1875, quando os miseráveis imigrantes chegaram a Nova Trento, e ao Vígolo, foram recebidos pelas flechas dos índios botocudos. Pouco mais de 100 anos depois, quando a congregação da madre Paulina começou a engatinhar pelo mundo, os proventos caíam em conta-gotas, vinham da caridade dos colonos a quem não sobravam "merréis" nem para levar os filhos à escola.

Em 1983, quando a canonização de madre Paulina era ainda um vislumbre de fé, conhecemos a casa da congregação da Irmãzinhas na original aldeia de VigoloVattaro , no trentino italiano. Fomos recebidos com afeto e um cálice de "licor de ovos" – uma honraria, porque estavam recebendo o filho de dona Cremilda Tridapalli Mendonça, a pintora de Nova Trento que recém tinha restaurado e pintado a velha igrejinha, de 1912, raiz da congregação.

Para as irmãzinhas que guardavam a casa onde tinha nascido Amabile (Paulina) Wisintainer, o "licor de ovos" era um luxo. Sobreviviam dos contados donativos vindos do Brasil meridional e de uma inacreditável "pirâmide", que um velho padre austríaco ergueu na pequena sala do sobrado de arquitetura alpina, e que dizia miraculosa para os males do câncer. Se a "pirâmide" feita com canos de alumínio tinha poderes além da ciência, na dúvida também nos deixamos banhar pelos fluídos, enquanto as Irmãzinhas agendavam visitas de doentes de vários países da Europa.

Ficamos uma semana em Vigolo Vattaro, hospedados no único albergue do "paese", onde a proprietária – Gabriela Ducatti, de saudosa memória – saía e nos deixava com as chaves. Inclusive do bar. Quando partimos, uma das Irmãzinhas nos fez um último pedido: portar a Nova Trento uma encomenda, que seria meio de arrecadar fundos para as missões da América Central e África. Enquanto nos preparávamos para a viagem, desembrulhamos a encomenda para melhor acomodar o pacote na mala: eram dúzias de relógios suíços. Deus nos acompanhou na alfândega e os donativos suíços foram entregues em boas mãos.

Os ponteiros dos relógios passaram e parece que foi ontem quando cravaram a pedra fundamental do imponente Santuário. Gente pobre doou um real, gente rica doou milhões para os sinos de bronze da torre de 42 metros de altura.

De minha parte, ainda estou em dívida com as Irmãzinhas, desde os tempos quando estudava piano no convento de Nova Trento, e pulava a janela para roubar goiabas do pomar.

Que Santa Paulina me perdoe pelas goiabas.

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