Do rol de paranaenses que atravessaram a nossa fronteira e fazem sucesso muito além do Rio Atuba, o curitibano Beto Bruel ilumina a todos, por dever de ofício: este mestre da luz é hoje o melhor iluminador do Brasil. Sempre no escurinho do espetáculo, avesso de estrela, tem o seu próprio cartaz na cena teatral. Preferido de nove entre dez estrelas do teatro, Beto Bruel é também titular absoluto da ficha técnica das produções do ator Marco Nanini, o que o faz freguês cativo da ponte aérea Rio-Curitiba. Ou Rio-Paris, cujo bilhete já está marcado para um dos próximos dias.
Casado com a atriz Regina Bastos e com uma carreira além de trinta anos, estrelas já não o impressionam tanto quanto as que brilham no céu iluminado de São Luiz do Purunã, onde Beto Bruel tomou gosto pela luz. Ali, na esplêndida paisagem da borda dos Campos Gerais, ele tem seu original quintal. Aliás, dois quintais: um, numa casa bucólica à beira do lago da Vila de São Luiz do Purunã; outro mais adiante, em Tamanduá, herança dos ancestrais franceses.
Os encantos e recantos de São Luiz do Purunã, é ver pra crer. Distante pouco mais de trinta minutos de Curitiba, a região tem como sua catedral a Capela de Nossa Senhora da Conceição do Tamanduá: construída no século dezoito, é sacrário daquela região de preservação, uma vez que era utilizada pelos tropeiros como ponto de parada para descansar o corpo, abençoar a alma e se penitenciar do pecado da gula. Nessa parte do evangelho, aquela gente é mesmo pecadora, que desde sempre entregou sua alma ao virado de feijão, ao arroz tropeiro e às carnes assadas no fogo de chão.
Sábado passado foi realizado o 1.º Festival de Costela de São Luiz do Purunã, naquela beleza de cenário. Tendo Beto Bruel como cicerone e Casto José Pereira, feliz proprietário da Pousada São Luiz do Purunã, como anfitrião, o autor destas maltecladas linhas participou de um programa de dar água na boca, cujo prato principal consistiu num concurso de assadores de costela, no “fogo de chão” – sem forno ou churrasqueira, à moda tropeira. Com inscrições livres, cada equipe recebeu 20 quilos de costela bovina, da melhor procedência, lenha e um posto, em meio à deslumbrante paisagem do Purunã. Para enfrentar a maratona de carne, fogo, brasa e fumaça, com muito suor, pinga da boa e cerveja, nove equipes se apresentaram ao distinto público guloso.
Abriram-se os trabalhos antes do raiar do dia, com as equipes na lide de descarregar tralhas e botar fogo na lenha para formar o braseiro, que exige técnica muito especial. Uns formam o braseiro em círculo, outros em forma de triângulo, ou em duas colunas paralelas, conforme o vento e outros truques. Com as costelas transpassadas em espetos especiais, e seguramente fincados no chão, foi dado início à batalha. Um pouco mais, um pouco menos, as costelas assaram das seis da matina às 13h30, quando então os jurados iniciaram a degustação, uma outra “prova de fogo”. O julgamento tinha os seguintes quesitos: apresentação da equipe; ponto de assado; tempero; apresentação da costela; temperatura correta.
A “começão” julgadora, presidida pelo gourmet Ivo Arthur, foi soberana e, depois de muita confabulação e mastigação, foram anunciados os vencedores, que foram todos. E apenas três os promulgados: 1 – Equipe Westaflex de Pascal Lepoutre; 2 – Equipe de Ivo Garret e família; 3 – Equipe de Carlos Choma.
Jaime Lerner conta que certa vez localizou na Itália o amigo Franco Giglio, pintor que infelizmente já deixou Curitiba e este mundo, apenas gritando seu nome na porta de entrada de uma pequena vila. “Franco Giglio!”, bradou Jaime Lerner. “Il pittore braziliano? Seconda casa, dopo la chiesa!”, respondeu uma nona.
De tão vizinha, a Vila de São Luiz do Purunã é um privilégio para os curitibanos. E se alguém quiser encontrar Beto Bruel, num fim de semana desses, é fácil. Basta bradar o nome: “Beto Bruel!”. Todos sabem que é o iluminado nome do teatro brasileiro.
Até sexta-feira; e se as costelas do Purunã deram água na boca, aguarde: no ano que vem a história se repete.