Passada a tormenta dos votos brancos, nulos e válidos, ultrapassamos também a fase dos votos de pêsames endereçados aos perdedores e eis que estamos na fase dos votos de felicidades.
São dois tipos de votos de felicidades: um sem aspas, outro com aspas. Tem o sincero voto de felicidades, sem aspas, e tem o irônico voto com aspas: ?Felicidades!? Curto, grosso e com exclamações.
Francamente, todo voto de felicidade, partindo do vencido, vem com o carimbo da hipocrisia. O veneno da ironia. Os inimigos não mandam flores. No máximo, telegrama de ?felicidades?.
Aspas para Aldous Huxley: ?Posso simpatizar com a dor de uma pessoa, mas não com os seus prazeres. Há algo curiosamente monótono na felicidade dos outros?.
Felicidade é uma palavra que exige aspas. Por isso até os mais próximos fizeram reparos à controvertida entrevista do governador Roberto Requião, no momento seguinte à apertura das urnas. Se o vencedor tivesse recebido os jornalistas depois de dois dias de foguetórios na Ilha das Cobras, o desfecho seria outro. O reeleito diria apenas o seguinte:
– Caros jornalistas, desejo a todos os meus votos de ?felicidades?. Com aspas! E nada mais tenho a declarar, mesmo sem aspas!
Aspas para George Bernard Shaw: ?Uma vida inteira de felicidade! Nenhum homem vivo conseguiria suportá-la. Seria o inferno?.
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Aspas não são apenas sinais que abrem e fecham a citação. Tem outros significados: no linguajar gaúcho, ?bater aspas?, quer dizer bater a orelha. Como expressão popular ?fincar as aspas? é o mesmo que cair de cabeça para baixo. E ?fincar as aspas no inferno? é o mesmo que desejar a morte à pessoa indesejável.
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Se o governador reeleito não usou aspas com os jornalistas, muito diferente foi aquela coletiva à imprensa de Osmar Dias, ao reconhecer a derrota. Elegante e sereno, botou aspas da primeira à última palavra da entrevista. Para resumir o discurso, Osmar Dias poderia ser mais sincero:
– Entre aspas, perdi a eleição. Os meus votos de ?felicidades? ao vencedor, e ele que vá ?fincar as aspas no inferno!?
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Todo marido traído tem aspas. Quem bebe socialmente não usa aspas para reconhecer que é alcoólatra. O padre que nos perdoe, ?até que a morte os separe?, só com aspas. Sem aspas, o futebol perde a sua graça: ?Vamos continuar trabalhando forte?, diz o desolado lateral, o volante fez ?o que o professor mandou?, o esforçado atacante ?não estava numa fase boa?, e o técnico ?continua prestigiado.?
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Nada melhor do que um feriadão para esfriar a cabeça. Agora é momento de lamber as feridas, serenar os ânimos e desejar aos vencedores sinceros votos de felicidades. Sem aspas.
Em contrapartida, vamos cobrar aqueles votos de felicidades que os eleitos nos prometeram durante a campanha. Sem aspas.