Artistas da sala ao lado

E não é que Luiz Inácio Lula da Silva está coberto de razão? Ao visitar Foz do Iguaçu nesta última quinta-feira, o presidente recorreu a uma imagem dos pampas para estancar a goteira do telhado de vidro palaciano: ?Muitas vezes você está na cozinha de sua casa, tomando chimarrão, e não sabe o que seu filho está fazendo na sala ao lado?.

A cena aconteceu no Rio de Janeiro, no início da semana, durante uma engajada tertúlia artística reunida em torno do presidente da República.

Lula estava na cozinha tomando um chimarrão, com seus correligionários da classe artística carioca, e não sabia o que estavam dizendo na sala ao lado. Só veio saber pela imprensa, como sempre. Se isso é ainda possível, até os mais sinceros eleitores de Lula ficaram encabulados com o que se viu e ouviu no recinto ao lado.

A atriz Cacilda Becker sempre exibia, na bilheteria do teatro onde atuava, um cartaz com esta frase: ?Não me peça de graça a única coisa que tenho para vender?.

Na sala ao lado, atores, produtores, cineastas e músicos deram de graça a única coisa que não podiam vender: a vergonha na cara. Foram além, produziram para o presidente uma tragédia intitulada ?Os fins justificam os meios?.

Na encenação carioca, o ator José de Abreu fez o papel de sabujo – servil, bajulador, capacho – e convocou a platéia para um brinde aos denunciados pelo procurador-geral da República como integrantes de ?organização criminosa?.

Quando chegou a sua vez de entrar em cena, o ator (?) Paulo Betti interpretou um magarefe, aquele que mata e esfola reses nos matadouros; açougueiro, carniceiro, carneador, que vive com as mãos sujas de sangue. Betti mordeu na jugular: ?Política só se faz com mãos sujas?.

A trilha sonora ficou por conta do músico Wagner Tiso. O parceiro de Milton Nascimento encantou os ouvintes no recital de loas ao presidente: ?Não estou preocupado com a ética do PT ou com qualquer tipo de ética?, declamou o compositor, que agora se integrou ao clube da esquina sombria.

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A atriz Elke Maravilha não estava na sala ao lado. Nascida em Leningrado, Elke Giorgierena Grunnupp Evremides é a mais brasileira de todas as russas há mais de quarenta anos. Perdeu a cidadania brasileira em 1971, quando foi enquadrada na lei de Segurança Nacional, acusada de subversão. Mesmo sem título eleitoral, ficou ?passada? com as declarações dos artistas da sala ao lado: ?Meu Deus, que horror! Eu tenho 61 anos, mas sou romântica, quero consertar o mundo. Levei um susto, conheço o Betti e ele fala uma coisa dessas. E o Wagner Tiso? Gente jovem ser burra tudo bem, mas velho ficar burro??.

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O cineasta Luiz Carlos Barreto, o rei do Rio, sempre foi freqüentador celebrado em todos os salões do poder. Desde os tempos da Embrafilme, tinha uma sala reservada para o tráfico de salamaleques dentro de empresas estatais que financiavam cinema neste asilo muito louco chamado Brasil.

No dia seguinte, foi a hora e a vez do Barretão prestar uma lição de amor ao jeitinho brasileiro de fazer política: ?Se o fim é nobre, os fins justificam os meios. Inaceitável é roubar. Mensalão não é roubo, é jogo político?.

A dama do lotação não seria mais despudorada.

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?Muitas vezes você está na cozinha de sua casa, tomando chimarrão, e não sabe o que seu filho está fazendo na sala ao lado.? O presidente sabe do que está falando.

Mesmo com o Fernando Henrique Cardoso se dizendo preocupado com a consolidação da derrota – ?Estou vendo tudo com uma certa preocupação. Lula está muito consolidado? -, deve ser por isso que os tucanos se mostram tão confiantes e serenos.

O impávido Alckmin aguarda que os artistas da sala ao lado façam o serviço por ele.

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